Lobisomem

Tinha um copo de whiskey, com duas pedras de gelo, numa mão e um cigarro na outra.
Estava parado no meio do quintal, em cima da relva por cortar, a olhar lá para cima.
O cão estava ao meu lado. Era um pastor alemão. Estava sentado nas patas traseiras. Também olhava lá para cima.
Estávamos os dois a ver a Lua Vermelha. O eclipse total da Lua Vermelha pendurada lá em cima no céu.
Bebi um gole de whiskey. Dei uma passa no cigarro. O cão olhou para mim.
A Lua estava bem lá em cima, enorme, enorme e brilhante, de um Vermelho sangue como se tivesse sido lavada com o sacrifício de um cordeiro.
E estávamos nós nisto. Eu e o cão. E a Lua Vermelha.
O cão levantou-se do chão e afastou-se de mim com o rabo entre as pernas. Olhava de lado para mim.
Mais distante, começou a rosnar. A rosnar para mim. Então, Cão?, perguntei-lhe.
Ele continuou a rosnar-me. Cada vez mais agressivo.
Eu dei uma última passa no cigarro e mandei-lhe a beata para cima, para o ameaçar, para o fazer parar, para lhe dizer quem mandava.
Eu estava a ficar assustado com o cão.
Dei um gole no copo.
A Lua continuava Vermelha lá em cima, pendurada sobre as nossas cabeças.
O cão continuava a rosnar.
Começou a sair uma baba dos cantos da boca do cão.
E então começou a ganir, a ganir e depois passou a ladrar-me. Ameaçava vir para cima de mim, mas não se atrevia a tanto.
Eu comecei a sentir o corpo esquisito. A sentir picadas. O corpo a tremer. A vista começou a ficar turva. Senti um arrepio pela coluna acima.
O cão continuava a ladrar para mim. A ladrar muito. Parecia histérico.
O copo que eu tinha mão, partiu-se. Partiu-se na minha mão. Olhei-a e vi-a cheia de pêlos. Pêlos a crescer. Pêlos enormes e a crescer cada vez mais. As minha unhas estavam enormes e aguçadas, como navalhas. Senti uma dor nas costas e percebi a t-shirt a rasgar de alto a baixo. As mangas a serem destruídas pelo aumento colossal dos músculos dos braços.
O cão continuava a ladrar e ameaçava lançar-se para cima de mim. Mas ao mesmo tempo estava com medo.
E foi então que comecei a uivar. A uivar muito alto à Lua Vermelha. Pus-me de quatro e desatei a correr dali para fora.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/27]

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