A Mulher que Nunca Acabava uma Conversa

Ela era uma daquelas mulheres que nunca acabam um assunto, vão assim despejando coisas ao longo dos tempos como se a conversa ainda lá estivesse, em banho-maria. E ia despejando as ideias como se fossem arrotos. Iam saindo. Aos solavancos.
Às vezes não percebia muito bem para onde é que caminhava a conversa. Quando julgava que já estava terminada, lá vinha um Portanto, um Assim, um Contudo ou ainda um Ou se quiseres, como se eu quisesse alguma coisa. Não, não queria!
Chegava a acontecer a conversa prolongar-se por vários sítios, entrando na conversa com várias pessoas diferentes, prolongando-se no tempo e no espaço, sem nunca perder o fio-à-meada.
Também no Facebook era assim. Talvez pior. Escrevia um post. Depois editava-o. Duas vezes. Três vezes. Havia posts que já não tinham nada a ver com os posts originais, tal a quantidade de edições. Chegava, inclusivamente, a responder a si própria para continuar uma estória sem fim.
Era cansativo. Ela era uma mulher cansativa.
Mas era interessante. Culta. Inteligente. Elegante. Lia. Gostava de pintura. Conhecia vinhos. Gastronomia. Acompanhava todos os programas de comida que passavam pela televisão. Claro que, na vida real, não comia glúten, nem lactose, nem gorduras, nem fritos, nem açucares. Procurava sempre as coisas light, qualquer coisa free, magro, com omega 3, cálcio. Uma lista interminável de coisas. E depois passava a vida na casa-de-banho. Nunca percebi se era causa ou consequência.
E então, uma vez virou-se para mim, ia eu a conduzir o carro, ela ia ao lado, no banco do pendura, e disse Isto não vai a lado nenhum. Eu já estava um pouco farto e aproveitei a deixa para sair. Encostei o carro à berma, abri a porta, saí e fui, a pé, em frente. Ela ainda me chamou algumas vezes. Ouvi-a gritar pelo meu nome. Mas não me quis virar. Alguém tinha de pôr um ponto final numa conversa que nunca mais terminava.
Ainda não tinham passado vinte minutos quando cheguei ao fim da estrada. Era uma estrada sem saída. E aí percebi a conversa dela Isto não vai a lado nenhum, pois não. Mas não podia dizer que estava a falar da estrada? Que porra!
Peguei no telemóvel. Sem rede. Voltei para trás a pé. Cheguei ao ponto de onde tinha partido mas o carro já não estava lá. E ela também não.
Entretanto passaram-se dois dias. Tenho a cara a arder por causa dos pêlos da barba. Há dois dias que não faço a barba e não estou habituado a ter pêlos na cara. Estou com fome. Só comi umas amoras selvagens que encontrei ali, numas silvas. Bebi água do pequeno ribeiro que cruzei ontem. Fiquei com diarreia. Não tenho papel. Não tenho lenços de papel. Já me perdi. Acho que ando aqui às voltas e não encontro a estrada de regresso. Ainda não vi nenhum carro. Continuo sem rede no telemóvel. Não tenho cigarros. Para quê, cigarros? Não fumo. Está bem, mas podia começar. Talvez me aliviassem os nervos. Está a ficar escuro. Acho que vai chover. Não tenho onde me abrigar. Não sei para onde ir. Tenho saudades dela. Gostava das conversas que tinha com ela. Gostava de a ouvir falar. Quando é que é o Festival da Canção?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/20]

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