No Buraco

Está a chover torrencialmente.
Já é Verão. Está calor. Mas está também a chover torrencialmente.
E logo hoje que me deu para começar a fazer a piscina. Para usufruir quando? No Inverno?
Já tinha feito um buraco considerável quando começou a chover. E a chuva não chegou, caiu. Quando dei por ela e quis sair do buraco, já não consegui. A lama escorregava debaixo das minhas mãos desesperadas a tentar escavar uma saída do buraco.
Agora continuo aqui no buraco que quase parece uma piscina. Quer dizer, mais parece um poço. Um poço onde não tarda vou ficar sem pé. Não, não vou ficar sem pé porque, primeiro, vou ficar soterrado.
Não há ninguém nas redondezas. Não há ninguém à minha espera. Não virá ninguém à minha procura.
Vou ficar aqui enterrado debaixo desta terra enlameada que já me começou a prender os pés e, não tarda nada, me irá cobrir por completo.
Devia estar com medo. Devia estar a gritar, a chorar, desesperado com o meu destino. Mas estou calmo. Sereno.
Sei que vou ficar por aqui, mas também sei que já vivi o que tinha a viver.
Já não haveria nada de novo. Nada de novo para mim. Tudo seria já uma repetição das repetições. Voltar aos mesmos destinos. Cometer os mesmos erros. Ver os mesmos quadros, os mesmo filmes. Ouvir as mesmas músicas. Ler os mesmos livros. Conversar com as mesmas pessoas.
É bom terminar no fim.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/16]

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