A Noite em que Fugi de Casa dos Meus Pais

Quando fugi de casa dos meus pais, não fui longe. Enfiei-me no galinheiro e dormi toda a noite na companhia das galinhas. Era madrugada quando o galo me acordou. E foi o suficiente para sair de lá a tempo de ir roubar o pão que a padeira deixava na porta da vizinha, duas casas mais abaixo.
Naquela altura a minha mãe criava animais. Galinhas. Patos. Coelhos. Havia uns galos pequeninos que acho que se chamavam cocós. Eram muito chatos, impertinentes e, naquela noite que lá passei, foi o único bicho que andou em volta de mim a picar-me as pernas e a voar à minha volta para me azucrinar a vida. Os patos não me ligaram nenhuma e os coelhos, que eram enormes, pareciam umas raposas, tinham medo de mim e enfiaram-se no fundo das gaiolas onde as minha mãe os tinha colocado.
Eu sentei-me no chão, encolhido e encostado às gaiolas dos coelhos e fui recebendo o calor que emanavam. Alguns patos deitaram-se encostados a mim. Ignoraram-me, mas aproveitaram o meu calor.
Quando o galo começou a cacarejar, ainda noite, mas já com o horizonte a clarear, saí do galinheiro e pus-me a andar às voltas ali no bairro, a fazer não sei muito bem o quê, à procura de uma ideia, a tentar perceber o que fazer, até que vi a padeira a deixar o pão pendurado na porta da vizinha. Esperei que ela se fosse embora e fui lá buscar três papo-secos que me alimentaram a manhã.
Era meio-dia quando regressei a casa.
O meu pai não estava. Estava a minha mãe. Ela era doméstica, que era o que as mães que não trabalhavam fora, eram. Olhou para mim, como se eu não tivesse fugido na noite anterior e disse-me Onde é que andaste? Estás com um cheiro horrível. Vai tomar banho! Eu ainda argumentei que não era Sexta-feira, que ainda não era dia de banho, mas ela não quis saber.
Quando o meu pai chegou, para o almoço, eu estava lavadinho, penteado e muito bem cheiroso. O meu pai perguntou o que é que se tinha passado para eu estar assim a meio do dia e a minha mãe respondeu Está apaixonado!
Não sei de onde é que ela tirou essa ideia.
Uma semana mais tarde arranjei a minha primeira namorada.
Nunca mais fugi de casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/17]

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