A Casa Desapareceu

Regressei a casa.
A árvore está seca. É uma figueira. Não sei se está morta. Não sei nada de árvores. Mas está seca. Sem frutos. Sem folhas. Os ramos parecem palha.
Abro a porta de casa. Entro. Sinto o cheiro a caldeirada. O refogado com cebola e alho, e o tomate. E os peixes que a minha mãe lá punha. O safio, a pescada, a sardinha, a lula, a amêijoa, a raia… Ai!, a raia! O que eu gosto de raia. Raia frita! Há quanto tempo não como raia frita?
Entro pelo corredor da direita, directo à cozinha, à sala. Vejo o tacho de barro ao lume, a fervilhar, olho para a rua através das janelas da marquise e vejo o silêncio. Não há vento. Os arbustos não abanam. O baloiço está parado. Há uma quietude. Vou até à sala. A televisão está ligada. Está a dar o Verão Azul. Sorrio de saudade ao ouvir aquelas vozes espanholas cheias de aventura.
Volto para trás. Vou para o outro corredor. O dos quartos. No quarto dos meus pais sinto o cheiro da laca da minha mãe. Do after shave do meu pai. Passo pela casa-de-banho e vem-me o cheiro de um perfume que lá deixei cair. A casa ficou cheirosa durante meses. Ainda hoje me cheira. Lembro-me que me atacou a bronquite.
Passo pelo meu quarto. Vejo a máquina de escrever. O poster da Kim Wilde. Os livros dos Cinco e dos Sete. Os Livros do Harold Robbins que comecei a ler quando me julguei adulto. As cassetes com as gravações do Som da Frente e da voz incompreensível do António Sérgio. Os singles dos Xutos & Pontapés e dos GNR. Os LPs dos Bauhaus e dos Echo and The Bunnymen. Ouço os Chameleons a dizerem que A Person Isn’t Safe Anywhere these Days…
Olho pela janela. Olho pela janela mas não vejo nada. Está emparedada com tijolos. Os cheiros da caldeirada e dos perfumes desvaneceram-se. Os Chameleons calaram-se. A casa desapareceu.
Estou num T0.
Estou no T0 onde vivo. Onde vivo só, na companhia das minhas memórias. Memórias de um tempo de esperança. Um tempo onde a vida prometia ser a Taluda, o Totoloto, o Euromilhões.
Um tempo cheio de maravilhas por vir.
Um tempo de enganos, afinal.
Estou deitado no sofá no T0 onde habito e olho para a televisão onde o Hernâni Carvalho fala de mais um crime contra idosos.
Eu já sou um idoso.
Acho que o Hernâni Carvalho começou a falar para mim. A falar de mim. Eu que me sinto enganado pela vida. Eu, já velho.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/13]

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