A Elipse de Richard Serra

Estou ali parado a olhar para o cão de Jeff Koons. Um enorme West Highland Terrier, florido e cheio de cor.
Devia estar com medo, mas não estou.
Acho que não me vai morder. Tem um ar doce. Doce, cheiroso e brincalhão. Puppy!, digo, alto. Puppy!, chamo-o. Puppy! Mas o Puppy não me liga nenhuma. Continua lá no seu poiso, a olhar Bilbao como se fosse o seu quintal, sem me passar cartão.
Ignora-me.
Ignoro-o.
Desço as escadas e entro dentro da casota de Puppy.
Ainda me viro para trás. Ninguém me segue. Estou incógnito. Isolado. Só.
Encontro a Elipse e sou sugado para o seu maelstrom. Desato a correr. Corro, corro, corro ao longo das suas curvas elípticas. Corro à procura do seu deus. Richard Serra é a santíssima trindade da Elipse. É o pai, o filho e o espírito santo da sua criação.
E continuo a correr. E não páro. Não tenho fim. Não há fim. Não consigo chegar ao seu fim. As curvas sucedem-se umas às outras num eterno devir.
Olho para a parede que me serve de baliza, que me marca o caminho, que me afunila a a existência e vejo uma linha, uma linha que é uma escrita, uma frase, uma texto, uma ideia, uma ordem. É uma bíblia. São aforismos de Yoko Ono, mas não os consigo ler. Estou em movimento perpétuo, não trago os óculos comigo e já não consigo fazer parar as letras que disparam perante a minha vã tentativa de as bloquear. Fogem perante mim como piolhos.
Continuo ali preso, na Elipse de Richard Serra, a correr, a correr e não consigo parar.
Para onde vou?
Bilbao? Adopta-me!

[escrito directamente no facebook em 2018/07/11]

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