Um Corpo Áspero

Ela puxou-me para dentro da tenda e eu fui. Por que raio haveria de não ir?
Estávamos os dois já muito bebidos. Eu talvez mais que ela. E deixei-me levar. Ela levou-me e eu fui.
Entrámos ruidosos na tenda. O parque estava em silêncio. No mais silêncio que um parque de campismo em pleno Agosto consegue ficar. Era tarde. Já de madrugada. Para além dos pinheiros já se adivinhava a chegada de uma pequena claridade. Entrámos na tenda e fechámo-nos lá dentro.
Ela agarrou-se a mim e começou a beijar-me onde calhava. Onde conseguia chegar com os lábio gretados. Pensei que precisava de baton hidratante.
Eu esforcei-me para conseguir descalçar as sapatilhas no pouco espaço que ela me permitia. Primeiro os beijos, depois as mãos pelo corpo e por fim a vontade de me tirar a t-shirt, coisa que fui eu que acabei por fazer.
Tirei-lhe também a dela. Passei a minha mão pelos braços, pelas costas, pela barriga e senti um corpo áspero.
A minha primeira reacção foi de repulsa. Mas tentei esconder-lha.
Insisti.
Voltei a passar as minhas mãos pelo corpo dela e não conseguia não pensar na pele que ia descobrindo. Uma pele áspera. Pele de anfíbio. Réptil. Às escamas.
Larguei-a.
Encostei-me ao fundo da tenda.
Tentei olhar para ela mas não consegui vê-la bem. Estávamos na penumbra.
Ela tentou aproximar-se, mas repeli-a. Gaita. Tinha aquela sensação nas minhas mãos. E não conseguia deixar de pensar na pele que não via, mas sentia. E não gostava do que sentia.
Era doentio. Eu estava em pânico. Precisava de sair dali.
Disse-lhe Não és tu, sou eu. Claro que ela percebeu que era uma desculpa. Mas não fez nada para me contrariar.
Parou.
Parou a olhar para mim. Ou para onde eu supostamente estava naquela penumbra.
Peguei na t-shirt e nas sapatilhas, disse Desculpa! e saí da tenda.
Na rua vesti a t-shirt. Calcei as sapatilhas. Acendi um cigarro e saí do parque.
Fui até à praia.
Caminhei junto ao mar.
E pensei no que se tinha passado.
Pensei nela. Na pele dela. E pensei em mim. E pensei no que tinha experimentado. Pensei no corpo dela e no que senti. No que achava que tinha sentido. E, depois, no que eu lhe podia ter provocado. E pensei que o problema não era a pele dela. Claro. Burro. Eu é que era o problema.
Ela tinha-se arrepiado com o meu toque no seu corpo e eu não percebera isso.
Voltei para trás.
Corri.
Entrei no parque de campismo a transpirar e fui procurar a tenda dela.
Não encontrei.
Nunca mais a encontrei.
Ainda hoje a procuro.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/02]

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