As Montanhas Geladas

Daqui da janela do quarto vejo as montanhas grandes lá ao fundo. E vejo o cume coberto de neve branca.
Sinto o frio que lá se faz sentir. Mas aqui em baixo está um calor de morte. Mais de quarenta graus. Deve ser possível estrelar um ovo no asfalto da estrada que contorna o sopé da montanha.
Visto daqui, aquela coroa branca lá no alto parece a cobertura de açúcar que a minha mãe punha no bolo das cerimónias. O bolo das cerimónias era o bolo que que a minha mãe fazia sempre que ia gente lá a casa. Um chá de Cidreira e uma fatia do bolo das cerimónias.
Seja qual for a época do ano, o cume está sempre coberto de neve. Faz sempre um frio de rachar lá bem em cima.
E eu sinto-o cá em baixo. Às vezes.
Dentro do quarto estou sem camisa e sem calças. Estou só com os boxers. E descalço. Quero receber toda a corrente-de-ar que passa pela casa. Mas é um ar quente que me deixa a ferver. O corpo ganha umas borbulhas por causa do calor, e coço, e faço ferida, e sangro, e tenho de tomar um zyrtec. Também costumo passar o corpo por água fria. Mas às vezes não é possível. A água fria é gelada.
A água que corre nas canalizações da cidade é gelada. Vem directamente do alto da montanha. E quando chega cá abaixo, ainda vem gelada. É por isso que eu sinto o frio da montanha cá em baixo.
Houve uma vez um miúdo que mergulhou nas piscinas municipais e ia morrendo de hipotermia. Não sabia que a água vinha das montanhas, não sabia que a água vinha gelada, não sabia que era preciso preparar o corpo, molhando-o gradualmente, não sabia que esteve quase a morrer. Mas sobreviveu.
Acendo um cigarro e debruço-me sobre a janela para tentar apanhar mais fresco. Deixo cair o cigarro. Era o último.
Olho para as montanhas com o cume coberto de neve e sinto o frio cá em baixo. Mas estou a morrer de calor. Transpiro. Tenho sede e uma vontade enorme de fumar um cigarro.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/31]

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O Tipo a Quem Eu Salvei a Vida

E ele disse-me Salvaste-me a vida! Obrigado!. E quando eu o olhei nos olhos a agradecerem-me, arrependi-me logo ali naquele momento, de a ter salvo.
Nesse dia ele ainda agradeceu mais algumas vezes. Parecia sincero. Parecia.
Ao longo dos anos voltou a repetir várias vezes Não me esqueço que me salvaste a vida! Sempre a parecer sincero. A parecer. A não esquecer.
Até que foi preciso que ele se lembrasse que eu lhe tinha salvo a vida e, nesse dia, nesse preciso momento, esqueceu-se.
O esquecimento faz parte da alma humana. Esquecemos-nos para poder continuar a viver. Eu já esqueci várias vezes. Precisei de esquecer para seguir em frente. E segui. Esqueci e segui.
E foi isso que eu fui. Um esquecimento. Eu fui um esquecimento para que a vida dele não voltasse atrás. Eu fui um esquecimento para que pudesse seguir em frente. Eu fui um esquecimento necessário para que a vida que eu salvei pudesse continuar a ter significado. Valor. Sentir-se viva.
Quando ele se esqueceu que eu lhe salvei a vida, foi também o momento em que ele decidiu acabar com a minha.
O seu esquecimento foi a minha morte.
Vou fumar um cigarro. Ou vários. E beber um copo de vinho tinto. Ou vários. Alentejano. Gosto de vinho tinto alentejano. Pode ser que me esqueça.
O vinho é vida. Não é?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/30]

A Tristeza Não Dura

Estava quase a chegar à praia. Estava quase a colocar o pé na areia. Quando vi a primeira onda, rasa, pequenina mas forte, a galgar os pequenos muros de areia feitos com os pés e começar a arrastar telemóveis, chinelos, sacos, cestos, mochilas, a enrolar toalhas e pára-ventos, e os chapéus-de-sol como borbulhas espetadas ao longo do avanço da pequena onda que tudo levava à frente menos os chapéus-de-sol, espetados na areia. As pessoas apanhadas de surpresa.
Estava quase a colocar o pé na areia mas não o fiz. Estava já toda a gente a recuperar o espírito, a perceber o perigo e a começar a correr à toa atrás de um chinelo que fugia e de um telemóvel que não parava quando veio a segunda onda, mais forte que a primeira, e arrancou os chapéus-de-sol espetados na areia e deitou crianças e jovens ao chão e começou a levar um pouco de pânico ás pessoas ali na praia.
Desisti de colocar o pé na areia e comecei a subir a escadaria de volta quando vi a terceira onda, ainda mais forte, a levantar as pessoas do chão, a bater com força e a levar tudo de arrasto. Nada lhe fazia frente.
As pessoas começaram realmente a assustar-se.
A meio das escadas ainda vi pessoas a tentar fugir. Pessoas a ultrapassar outras pessoas, pessoas a pisar pessoas, homens a largarem mulheres e crianças e a fugirem à quarta onda, grande, grande que arrastava os corpos mais pequenos das crianças para o mar.
Continuei a subir as escadas e virei-me ainda a tempo de ver a quinta onda, enorme, a limpar toda a praia. Já não havia telemóveis, nem chinelos, nem sacos, nem cestos, nem mochilas, nem toalhas nem pára-ventos, nem sequer os chapéus-de-sol. Ainda havia alguns corpos a tentar chegar às escadas, mas com dificuldade. E o que mais se via eram corpos a boiar no mar, a afastarem-se para longe. Para o horizonte.
Antes de chegar ao alto do penhasco, ainda vi a sexta onda. Mas já não vi mais nada. Já não havia nada para ver. Já não havia praia. Só água. Só mar. Só corpos no mar. A boiar.
Virei costas e já não vi a sétima onda.
Mas quando cheguei ao alto do penhasco, à estrada onde tinha o carro, agoniado, angustiado, assustado, a querer gritar mas sem forças para o fazer, vi a festa. A festa de gente que se abraçava, agitava bandeiras de Portugal e levantava os chapéus-de-sol e as toalhas, e as raparigas corriam com os seios soltos, livres, e havia abraços e beijos, alegria e muitos sorrisos. A Selecção Portuguesa de Futebol Sub-19 tinha acabado de se sagrar campeã da Europa frente à Itália, na Finlândia.
Não há tristeza que sempre dure.
Tirei a minha toalha e fui festejar. Tinha tempo para chorar os mortos. A bem da verdade nem os conhecia.

Natal em Julho

Muito da minha vida ao longo dos anos tem sido feito à espera dos elevadores ou dentro deles.
Hoje voltou a ser assim. A minha vida numa roda-viva, para cima e para baixo à velocidade de Schindler, os que existem no prédio onde vivo.
Hoje estava no meu andar à espera do elevador. Estava a demorar. Mas lá acabou por chegar. Abriram-se as portas. Entrei.
Já lá estava um casal. Ela estava grávida. Gravidíssima. Com uma barriga enorme.
Disse Boa-tarde!. Responderam-me Hello!, os dois, mas não se sobrepuseram. Primeiro um, depois o outro. Hello!
Íamos a descer os andares. Cada um na sua vida. Eles os dois em conjunto. E depois, um esticão. O elevador parou. Entre dois andares.
Manteve-se a luz no interior do elevador.
Tocámos à campainha.
Insistimos.
Nada. Nada de nada.
Expliquei-lhes, em inglês, que não era normal. Era normal um dos elevadores estar avariado, mas não era normal avariar assim, a meio de uma descida, a meio do trabalho, com gente lá dentro. Os elevadores ali avariavam mas com razoabilidade.
Eles disseram, na verdade ele disse, que estavam habituados. Eram palestinianos. Na cidade onde viviam era normal não haver elevadores. Quando havia não funcionavam. Mas o normal era não haver. E quando funcionavam, a maior parte das pessoas preferia ir a pé.
Emigrantes? Não, não eram emigrantes. Ele era marceneiro. Fazia móveis de madeira. Com as mãos, dizia ele orgulhoso, enquanto me mostrava os calos. Estavam ali porque a mulher era engenheira Biotecnológica e estava ali em Leiria para assistir a um simpósio internacional no IPL
Só consegui emitir um Ah! de admiração e sem saber que mais dizer, quando a mulher começou a falar muito rápido, assustada e com as mãos agarradas à barriga. Tinha água a escorrer-lhe pelas pernas abaixo. Uma poça de água aos pés.
Contracções.
Ficámos todos nervosos. Eu fiquei muito nervoso.
A campainha tocava mas ninguém aparecia.
O meu telemóvel sem bateria. Os deles sem rede.
Ela deitou-se.
Ia dar à luz ali. Naquele elevador sem graça nenhuma. Avariado. Com uma luz fraquinha e a tremeluzir. À minha frente.
Entrou em trabalho de parto quase de imediato.
O marido tomou a situação nas mãos. Literalmente. Pediu a minha ajuda.
Amedrontado, ofereci-me.
Não me recordo de muito.
Lembro-me de gritos. De palavrões em inglês e outras coisas que não identifiquei. De sangue. Do homem retirar a camisa. De pedir a minha t-shirt. De um bebé a sair de dentro da mãe. De choro. De muito choro. E riso. Uma confusão de berros de choro e gargalhadas de alegria.
O homem virou-se para mim, ainda com a criança nas mãos e disse-me Jesus!, e depois colocou a criança sobre o corpo da mãe e tapou-a com a minha t-shirt. A mãe abraçou-a, cansada mas alegre e muito feliz.
O elevador deu um estalo e recomeçou a funcionar. A andar para baixo. Para o rés-do-chão.
Chegamos lá abaixo e eu fui a correr à rua, para pedir ajuda à cervejaria frente ao prédio. Chamei a ambulância que chegou em menos que nada.
Eles foram-se embora na ambulância. Agradeceram-me. Despediram-se de mim e repetiram os dois Jesus!, de sorriso rasgado.
Ao fundo, na rua, vi passar um cigano com um burro pela mão.
Nem sei o que pensar.
Eu acabei por ficar aqui na cervejaria. Estou ao balcão. Já bebi sete imperiais e continuo com sede. Preciso de um cigarro mas não consigo sair do balcão. E não sei o que pensar.
Não sei mesmo o que pensar.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/28]

Lobisomem

Tinha um copo de whiskey, com duas pedras de gelo, numa mão e um cigarro na outra.
Estava parado no meio do quintal, em cima da relva por cortar, a olhar lá para cima.
O cão estava ao meu lado. Era um pastor alemão. Estava sentado nas patas traseiras. Também olhava lá para cima.
Estávamos os dois a ver a Lua Vermelha. O eclipse total da Lua Vermelha pendurada lá em cima no céu.
Bebi um gole de whiskey. Dei uma passa no cigarro. O cão olhou para mim.
A Lua estava bem lá em cima, enorme, enorme e brilhante, de um Vermelho sangue como se tivesse sido lavada com o sacrifício de um cordeiro.
E estávamos nós nisto. Eu e o cão. E a Lua Vermelha.
O cão levantou-se do chão e afastou-se de mim com o rabo entre as pernas. Olhava de lado para mim.
Mais distante, começou a rosnar. A rosnar para mim. Então, Cão?, perguntei-lhe.
Ele continuou a rosnar-me. Cada vez mais agressivo.
Eu dei uma última passa no cigarro e mandei-lhe a beata para cima, para o ameaçar, para o fazer parar, para lhe dizer quem mandava.
Eu estava a ficar assustado com o cão.
Dei um gole no copo.
A Lua continuava Vermelha lá em cima, pendurada sobre as nossas cabeças.
O cão continuava a rosnar.
Começou a sair uma baba dos cantos da boca do cão.
E então começou a ganir, a ganir e depois passou a ladrar-me. Ameaçava vir para cima de mim, mas não se atrevia a tanto.
Eu comecei a sentir o corpo esquisito. A sentir picadas. O corpo a tremer. A vista começou a ficar turva. Senti um arrepio pela coluna acima.
O cão continuava a ladrar para mim. A ladrar muito. Parecia histérico.
O copo que eu tinha mão, partiu-se. Partiu-se na minha mão. Olhei-a e vi-a cheia de pêlos. Pêlos a crescer. Pêlos enormes e a crescer cada vez mais. As minha unhas estavam enormes e aguçadas, como navalhas. Senti uma dor nas costas e percebi a t-shirt a rasgar de alto a baixo. As mangas a serem destruídas pelo aumento colossal dos músculos dos braços.
O cão continuava a ladrar e ameaçava lançar-se para cima de mim. Mas ao mesmo tempo estava com medo.
E foi então que comecei a uivar. A uivar muito alto à Lua Vermelha. Pus-me de quatro e desatei a correr dali para fora.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/27]

Despejado por Inércia

Estava calor.
Eu deitei-me esparramado no sofá da cozinha. A janela aberta. Não havia corrente de ar porque não havia janelas do outro lado. As janelas do T1 estavam todas do mesmo lado. Mas ter a janela aberta dava-me a ilusão que o fresco entrava por ali dentro para me refrescar as peles.
Fumava um cigarro. Era difícil fazer chegar os dedos com o cigarro à boca. Mas precisava do fumo. Estava difícil mexer-me. Estava difícil pensar. Estava difícil ser eu, ali, naquele momento.
Na televisão um programa qualquer com a Rita Ferro Rodrigues. Não suporto a voz dela mas não conseguia levantar-me para mudar o canal. Tinha o comando avariado.
Também tinha uma ventoinha, mas já não girava as pás. Estava avariada também.
A cinza caía do cigarro para o chão. Não conseguia chegar ao cinzeiro. Um borrão caiu em cima do sofá e fez um buraco. Mais um.
Foi então que a campainha tocou. Quem seria? Não estava à espera de ninguém. Nunca estou à espera de ninguém. Quem seria?
Comecei por pensar que tinha de me levantar. Comecei a tentar levantar-me. Mas o pensamento, por mais lento que fosse, é sempre mais rápido que a acção. Na minha cabeça já estava à porta a ver quem seria. Na realidade da minha dimensão ainda estava deitado no sofá com o cigarro nos dedos e um troço enorme de cinza a querer cair. E que acabou por cair. Antes ainda de me ter levantado.
Forcei. Forcei-me. Balancei o corpo e consegui, dificilmente, içar-me. Sentei-me no sofá. Vi, na televisão, a Rita Ferro Rodrigues a falar comigo acerca de uma estória qualquer sobre o direito das mulheres. Está bem, está bem, pensei, ela fala sempre muito sobre o direito das mulheres, Mas olha, não há ninguém mais feminista que eu, gritei-lhe. E ri-me. Só consegui pôr-me em pé depois de parar de rir. As duas coisas são incompatíveis.
Já estava em pé quando vi, ao fundo, um papel a entrar por baixo da porta.
Caminhei até lá. Verguei-me lentamente, com dificuldade, e apanhei o papel. Era um envelope. Uma carta. Abri-a. E li-a.
Estava a ser despejado de casa. Tinha um mês para sair dali.
Porra!
O que é que eu iria fazer?
Ainda tenho um mês, pensei.
Arrastei-me de volta ao sofá e deixei-me cair. Reparei que ainda tinha a beata, já apagada, entre os dedos. Deixei-a cair no chão. Na televisão, a Rita Ferro Rodrigues continuava a falar para mim.
Vai-te foder!, disse-lhe, zangado.
Ainda tinha um mês.
E decidi voltar a esparramar-me no sofá.
Ainda tinha um mês e ainda aqui estou.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/26]

Em Queda Livre

Estava a fazer uma torrada e começou a sair fumo da torradeira. Fui desligar, mas não desligou. Puxei o fio mas só veio a capa de plástico. O fio continuou ligado à tomada. Agarrei numa faca e tentei espetar as torradas. Tirei a primeira. A segunda rasgou-se e a faca espetou-se nos filamentos, deu um estalo, eu levei um esticão e o quadro disparou.
A luz veio abaixo. Tirei o que restou da segunda torrada. Estavam ambas carbonizadas. O fumo espalhado pela casa. Um terrível cheiro a queimado.
Liguei o quadro.
Liguei a máquina do café. Não havia torradas, que houvesse café. Luz verde. Meti a cápsula. Carreguei no botão. O café começou a cair. E continuou. Não desligou automaticamente. Começou a cair para fora da chávena. Para fora da plataforma da máquina de café. Para o balcão em mármore da cozinha. Para o chão. Passando pelos móveis brancos. Carreguei no botão. Nada. insisti. Nada outra vez. Desliguei da ficha. Parou. Mas já estava todo no chão.
Pensei em ir buscar a esfregona. Mas não fui.
Tinha de ir à rua beber um café.
Fui tomar um duche rápido.
Liguei a água quente. Temperei-a. Enfiei-me lá debaixo. Enxaguei-me. Cheguei-me um pouco para o lado. Pus champô no cabelo e esfreguei. Ensaboei o corpo e esfreguei. Enfiei-me de novo debaixo do chuveiro, mas a água estava fria. Gelada. Saí lá debaixo. Mas tinha de tirar o champô e o sabonete. E acabei por ir entrando e saindo, aos berros, a tentar ser mais forte que a água fria. Foi uma dança entre o entrar e sair, esfregar e limpar.
Fui lavar os dentes. A embalagem da pasta estava vazia. Espremida até ao tutano.
Vesti-me. Saí de casa. Fechei a porta à chave e a chave partiu-se na fechadura.
E agora, como é que entro em casa? pensei.
Achava que tinha uma janela aberta. Talvez pudesse entrar pela janela da casa do vizinho do lado. Ou chamar os Mestres Chaveiros e esperar o dia inteiro até que possam cá vir a casa.
Chamei o elevador. Entrei.
Agora estou aqui no elevador. Parado entre o quarto e o terceiro andar. Esta porra não anda para baixo nem para cima. As portas não abrem. A campainha não toca. O telemóvel não tem rede. Tenho um maço de cigarros no bolso das calças, mas não tenho lume.
Que mais me falta acontecer?
E é então que ouço partir um cabo de aço e sinto o elevador a dar um esticão. Está desequilibrado. A fazer ruídos estranhos. A abanar. Espero que não caia, penso. Espero que o outro cabo aguente, volto a pensar.
Então ouço outro cabo de aço a rebentar.
E sinto-me em queda livre.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/25]