Enquanto o Sangue Fluía

Entrei na loja e ouvi-o.
É daquelas vozes a que não se consegue fugir. Monocórdica. Persistente.
Eu entrei na loja por engano. Julgava que era um quiosque de jornais, onde esperava encontrar A Bola do dia, mas afinal era uma daquelas lojas de bric-à-brac onde se vendem produtos de ocasião, aquelas coisas que ninguém procura mas que, quando se encontra Oh, tão fofinho!, pensa-se como foi possível viver toda a vida sem.
Aquela voz estava a tentar vender um produto de revenda. Falava das qualidades, do fantástico que era, mas a voz não transmitia nada disso. Não transmitia emoção. Desejo. Vontade. Era uma gravação aprendida numa aula de formatação.
E pensei Como se pode vender algo em que não se acredita?
A voz sabia tudo sobre o produto em questão. A voz respondia a todas as dúvidas lançadas sobre o produto em questão. Mas a voz não queria vender aquele produto. Queria só vender. Porque era esse o seu trabalho. Não a vocação.
Depois de ter dado um giro à loja e, finalmente, ter percebido que não havia ali jornais, acabei por sair.
Cá fora encontrei-a à minha espera, encostada a um corrimão, à sombra, debaixo de uma árvore, a tentar fugir do sol quente.
Deu-me um beijo.
Trinquei-lhe o lábio enquanto nos beijávamos.
Senti o cheiro do sangue que lhe escorria, numa pequena gota, pelo queixo abaixo. E lambi-o. Lambi o sangue. Excitou-me.
Abracei-a e fomos, abraçados, à procura d’A Bola.
Pelo canto do olho vi-a a lamber-se a si própria. Não desperdiçava uma gota de sangue. Mesmo que fosse o dela.
Aproximava-se o meio-dia e era melhor regressarmos a casa. Tinha de encontrar A Bola rápido. Enquanto o sangue fluía.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/19]

Todas as Gajas São Bipolares

Era meia-noite.
Era meia-noite e eu já estava bêbado.
Virei-me para a gaja e disse Eu acho que todas as gajas são bipolares.
Ela ficou parada a olhar para mim. Durante muito tempo olhou para mim e não disse nada. E depois conseguiu largar O que é que queres dizer?
Não sabia.
De verdade que não sabia o que é que queria dizer com aquilo.
Acho que só queria chocá-la. Mandar assim uma bojarda para atordoar.
Mas depois comecei a pensar. A pensar nas gajas que tinham passado pela minha vida. Pela minha cama. Pelos meus braços. E, pensei Mas não são? Todas?
Não queria ser injusto. Sim, não queria ser injusto. Mas desfilei todo o meu historial de relacionamentos e os caminhos por que enveredaram e cheguei à conclusão que: Primeiro Eu estava louco e Segundo Todas as gajas mudavam de personalidade consoante estavam na cama ou na mesa comigo.
Não seria eu o bipolar?
Isto aconteceu durante o jantar. Não conversámos mais até ao fim.
Quando chegaram os cafés, bebi o meu sem açúcar para despachar o drama. Ia levá-la ao táxi e Adeus, até um dia destes.
Não sei porque disse o que disse.
Não sei porque raio não aprendo a calar a boca.
Elas são bipolares (e sim, são quase todas bipolares), mas eu tenho a porra de uma boca enorme que não consigo calar.
Fui para casa e não consegui dormir a noite inteira.
Acho que fui atormentado pela minha própria bipolaridade.
Chorei. Ri. E não preguei olho. Mas claro, estava bêbado.
No dia seguinte parecia um zombi mal dormido.
Precisava de aprender a calar a boca.
Sou o meu próprio inimigo.
De manhã, quando me levantei, tive de ir a correr para vomitar na retrete.
Passei o dia seguinte com a porra de uma azia.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/18]

O Privilégio

O sol tirou-me de casa.
Fez-me sentar na varanda. Depois obrigou-me a preparar um gin.
Tive de guerrear para conseguir ir buscar um maço de cigarros. Parece que estava muito calor, demasiado calor para fumar.
Sentei-me na varanda a bebericar o gin e a fumar cigarros.
Liguei a rádio. Queria a TSF mas não se apanha na zona baixa da cidade. Só havia estática. Desliguei. Fiquei em silêncio. Só com o bruá da cidade.
Transpirei.
Tirei a t-shirt e fiquei em tronco nu. Ninguém me viu. Ninguém me vê.
Via, ao longe, gente a passear debaixo do sol abrasador. Pensei Aquela gente é doida, mas percebi que estavam a recuperar de um Inverno que parecia não mais terminar.
As costas ao léu, das raparigas, estavam muito branquinhas. Tal como as pernas dos rapazes que ousavam os calções.
Eu estava em calções, mas ninguém me via. Ninguém via a cor das minhas pernas. Nem se eu tinha, ou não, varizes. E não tenho.
Adormeci. Adormeci com o cigarro na mão.
Acordei com um borrão de cinza enorme nos dedos. Não caiu ao chão. Levei-o, com cuidado, ao cinzeiro. Deixei-o cair e desfez-se. O gin era já só água, do gelo derretido.
Fui fazer outro. Faço gins simples, sem grandes merdas. Limão espremido. Gelo. Água Tónica e gin. Bombay. Chega.
Voltei para a varanda. Acendi novo cigarro. Beberiquei o gin.
Voltei a olhar para a rua, a sentir o calor que se fazia sentir lá fora, e pensei. Pensei que era um privilégio. Aquela varanda fazia de mim um privilegiado. Dali podia assistir ao mundo. Dali podia fugir às pessoas. Dali podia ser o que quisesse. Fazer o que quisesse. Sobreviver, ou não, se quisesse.
Ali era.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/17]

A Despedida

Estava sentado à mesa.
Estava sentado à mesa com o copo de vinho tinto na mão a desejar-lhe as maiores felicidades.
Fazia agora três anos. Três anos de ausência e saudade.
Três anos tristes em que vivi preso no lamaçal. Três anos em que as lágrimas me alimentaram a alma.
Agora estava ali sentado, a mesa posta para duas pessoas, a encetar um jantar que queria brilhante.
Costeletas de borrego grelhadas no carvão acompanhadas de esparregado de espinafres. Era o seu prato de eleição. Ela que nem gostava de borrego, mas as costeletinhas assadas eram um mimo que devorava à mão e lambia os dedos.
Acompanhava com um Mouchão tinto. Caro mas merecido.
Servi-me. Comi as costeletas à mão e fui falando, fui contando as estórias, as várias estórias que fomos vivendo nos anos todos que nos acompanhámos vida fora. Lambi os dedos. Um a um. Como se fossem os dela.
Cada copo de vinho rendido em homenagem. À tua. À tua que tanta falta me fazes. Tchim-tchim.
Mas acabou.
Tinha de acabar.
Queria seguir em frente.
Precisava de seguir em frente com a minha vida.
Aquele foi o adeus, o encontro de despedida. O encontro em que lhe repeti o quanto a amava, sim, a amava ainda, mesmo depois de três anos de ausência, mas precisava de seguir em frente.
Juntei todas as coisas dela num caixote. Fui até à praia e deitei-lhe fogo. Vi as cinzas serem levadas pelo vento mar adentro e gritei-lhes Vão ter com ela. Encontrem-na.
Acabei as costeletas de borrego. Acabei o esparregado. Despejei a garrafa. Comi e bebi por mim e por ela.
Dei uma volta pela casa. Cheirei. Vasculhei. Olhei a toda a volta, em todo lado. E descobri que já nada ali restava dela. Nem o cheiro. Nem a imagem. Nem os despojos.
Nunca a visitei no cemitério. Para mim ela tinha continuado por aqui. Comigo. Durante estes últimos três anos.
Mas hoje despedi-me.
Não queria mais lágrimas.
Hoje decidi renascer.
Mantenho aqui, neste cantinho, um bocado dela que não irá nunca desaparecer. Mas vou em frente. Estou cansado de viver com fantasmas. Preciso de pessoas. Preciso de sentir. Tocar. Ser tocado. Preciso de voltar a amar. E ser amado.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/16]

Caixa de Cartão

Estava em modo pára-arranca. Mais pára que arranca. E cada vez que arrancava, ou tentava arrancar, parava.
Estava um calor infernal. Tinha o ar-condicionado do carro avariado e ia com as janelas abertas. A levar com os gazes dos carros todos que iam à minha frente também em constante aceleração.
Liguei a rádio. Passei por todas as estações. Nada de jeito.
Enfiei o dedo no nariz. Raspei ranho seco. Fiz uma bolinha. Olhei para ela. Mirei-a e, depois, mandei-a janela fora.
E foi nessa altura que a vi.
De calças de fato-de-treino puxadas até às mamas. Camisolão grosso e, o que me chamou a atenção, um barrete de lã enfiado pela cabeça abaixo.
Estava parada à beira da estrada, com um molho de cartões ao lado, e olhava para os carros que passavam, parados. Ria-se. Ria-se sozinha. Virava-se para o lado e dizia qualquer coisa que eu não ouvia.
Estava a falar com quem?
Virei-me para trás no carro. Não vi ninguém. Um muro de uma casa. Um pequeno jardim. Uma carrinha parada em cima do passeio. Um caixote do lixo.
E, então, vi sair coisas do caixote do lixo. Coisas a voar para fora. Papéis. Cartões. Uma laranja. Alguém que surgia lá de dentro com um caixote de cartão nas mãos. Lançou o caixote de cartão para o chão e saiu lá de dentro deixando-se deslizar pelo caixote de lixo até cair no passeio.
Era um rapaz. Novo. De camisola de alças do Barcelona. E um cap com o X de Malcolm X. Levantou-se do chão. Juntou os cartões e os papéis todos, colocou-os na caixa de cartão, apanhou a laranja e guardou-a no bolso das calças de fato-de-treino, e colocou a caixa de cartão ao ombro.
Entretanto, a mulher puxou de uma escarreta lá bem do fundo e cuspiu-a para a frente do carro. Do meu carro. Agarrou nos cartões, colocou-os às costas e arrancou pelo passeio. O rapaz seguiu-a à distância.
E fui acompanhando-os a ultrapassarem os carros que continuavam num pára-arranca estúpido. Iam devagar mas mais depressa que eu.
Lá muito à frente, quando estava já a deixar de os ver, viraram à direita e desapareceram entre as casas.
Eu continuava no pára-arranca. Levei um dedo ao nariz mas já não tinha ranho seco para tirar. Cocei a cabeça. Descobri um montinho de caspa e comecei a tirá-lo.
Acendi um cigarro. Olhei o maço e vi que ainda tinha metade. Esperava que fossem suficientes até chegar à praia. Mas não sabia se conseguiria lá chegar enquanto ainda era Verão.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/15]

Quando Dei por Ele Era Tarde

Mandei uma pancada no homem com a parte da frente do carro e ele foi projectado para além do muro da casa e ficou empalado na vara que estava a levantar a roupa estendida a secar.
Não podia fazer de outra maneira.
Não consegui fugir.
Ia de carro pela estrada municipal, numa zona em que havia algumas casas de pequenos quintais ajardinados e de pequenas hortas bem cuidadas e alguns armazéns e oficinas automóveis. Era uma estrada com algum trânsito local, principalmente tractores que aproveitavam a estrada para se deslocarem entre terrenos.
Ela vinha ao meu lado a zurzir-me os ouvidos.
O horrível disto é que em casa ignorava-me e, na rua, fazia estas cenas. Nem sei o porquê da discussão. Nunca sei. Já não sei mais. Não quero saber. Não sei mesmo o que é que estava a discutir. Sei que estava aos berros. Como sempre. E eu irritei-me e deixei cair o cigarro entre as minhas pernas e o cinto de segurança não deixou procurá-lo e acabei por queimar os testículos numa altura em que se aproximavam de mim dois carros em sentido contrário, um a ultrapassar o outro, e um velho, gordo, estava distraidamente de cu esticado para a estrada debruçado na janela de um carro a conversar com uma rapariga que, vim a saber mais tarde, era sua filha. E quando dei por ele, era tarde.
Quando dei por ele já me tinha apercebido que os dois carros não poderiam fugir para a sua direita porque havia o muro de uma casa e, à velocidade que vinham não conseguiriam travar a tempo, e eu estava histérico aos saltos no interior do meu carro, a ouvir os berros dela a foderem-me a cabeça e as minhas mãos tinham perdido o volante e os pés escorregaram nos pedais e já era tarde para tudo quando ouvi a pancada seca que dei no velho com a parte da frente do carro e o vi a voar por cima do muro da própria casa e a ser empalado na vara com que a mulher dele estava a levantar a roupa que tinha acabado de colocar a secar.
Só consegui travar uns metros mais à frente.
Um silêncio caiu sobre a terra.
Ela calou-se.
Os dois carros, senti-os a travar, em deslize, até o som se extinguir.
Ouvi um Pam, seco.
Depois o silêncio.
E fui acordado pelo grito da mulher. O grito da filha. O grito dela. O barulho dos carros que arrancaram de repente e se puseram em fuga.
E eu?…
Eu telefonei à policia, aos bombeiros, aos jornalistas daqui da zona.
E agora aguardo que os problemas me caiam em cima.
Puta de vida.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/14]

Da Vida desse Homem

Estou à varanda, debruçado no parapeito, e penso na vida desse homem.
Fumo um cigarro. Lanço fora o fumo e vejo-o subir aos céus e desfazer-se. E penso na vida desse homem hoje.
Não me interessa particularmente a vida desse homem, mas não consigo não pensar nele.
Penso que tem uma ex-mulher. Outra ex-mulher. Uma esposa que está a caminho de ser a nova ex-mulher.
Penso que tem uma filha da primeira mulher, outra da segunda e uma da terceira, acrescentando uma enteada desta última.
Penso nesse homem que entrou a grande velocidade na auto-estrada, em sentido contrário e grita Cabrões! Cabrões de merda! Estão a ir todos no sentido errado.
Penso nesse homem que tem um vencimento mensal de dez mil euros, mais prémios por objectivos, mais um BMW e motorista e um cartão de crédito para refeições e outras necessidades no exercício das suas funções e ainda mais um prémio de um milhão de euros se chegar ao fim do seu mandato.
E penso que esse homem já delapidou o património da sua entidade empregadora em vários milhões de euros.
E penso Porque é que não deveria ele agarrar-se, com unhas e dentes, ao seu lugar de sonho?
E penso que a perda de tudo isto será o equivalente a levar um tiro. A um suicídio.
Acabo de fumar o cigarro e deixo cair a beata, ainda em brasa, da varanda abaixo, e olho, olho para ver se cai sobre a cabeça de alguém.
E penso que o salário mínimo neste país é de quinhentos e oitenta euros.
E penso que o salário médio neste país é de cerca de novecentos euros.
E penso que o aluguer de uma casa de tipologia T2 em Lisboa é de €€€ (actualizar diariamente).
E penso que era na minha vida que devia estar a pensar.
Mas se pensasse na minha vida, corria atrás da beata varanda abaixo.
E volto a pensar na vida desse homem. Nesse homem que chama crianças mimadas… A quem? Não aos outros, a ele.
Preciso de um copo de vinho.
Não quero pensar na minha vida. Não quero pensar na vida desse homem.
Gostava de saber voar.

[escrito directamente do facebook em 2018/06/13]

Sardinhada de Santo António

Era noite de Santo António. Mas veio o São Pedro e fodeu tudo.
Eu comi umas sardinhas assadas no forno. Polvilhadas de sal grosso. Fiz uma salada de pimentos verdes e vermelhos, cebola e alho e levei a aquecer numa frigideira com azeite. Só uma ligeira cozedura. Depois aqueci na torradeira uma fatia de pão de Rio Maior.
O cheiro começou a invadir a casa. Tive de fechar a porta da cozinha para libertar os quartos deste cheiro.
Coloquei a fatia de pão num prato. Fiz a cama no pão com os pimentos e a cebola e coloquei a sardinha por cima. Com uma colher retirei um pouco de azeite da frigideira dos pimentos e da cebola e espalhei por cima da sardinha.
Abri uma garrafa de Tellu’s, Douro 2016. Sentei-me à mesa e degustei. Lambi os beiço. Estava um sabor.
Liguei a televisão para o noticiário me acompanhar o jantar.
Lisboa estava à pinha. Os pequenos largos dos bairros mais populares estavam cheios de turistas a pagarem cinco euros por uma sardinha mirrada tombada numa fatia de broa, pequena e seca.
Estava a ver o directo na televisão quando, de repente, e sem aviso, caiu uma carga de água sobre Lisboa e levou de enxurrada os santos populares.
Os turistas nem se aperceberam do que lhes caiu em cima. Estavam sorridentes, encharcados e gritavam para a televisão que continuava em directo Very typical! OMG, it’s very typical!, e sorriam, sorriam com pedaços de sardinha presos entre os dentes.
As noivas de Santo António ficaram retidas na Sé de Lisboa. Os noivos saíram para ir ao Campo das Cebolas comprar tabaco e nunca mais regressaram.
O resto da equipa do Sporting pediu a rescisão de contratos e Bruno de Carvalho ficou sozinho como presidente, vogal, treinador, jogador e empresário.
Desliguei a televisão e fui fazer café. Bebi-o.
Abri a porta da rua e desci à cidade. Aqui estava uma bela Primavera a caminho do Verão. Acendi um cigarro e deixei-me levar pelas ruas vazias de turistas da cidade e a pensar A Edilidade da minha cidade fez um belo trabalho.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/12]

Ir à Bola com o Meu Pai

Era miúdo e ia ao futebol com o meu pai.
Pegava na bandeira, com ripa de madeira que ninguém proibia de entrar no Estádio que ainda era Campo da Bola, numa almofada para sentar o rabo suavemente nas bancadas de cimento, passávamos na senhora dos tremoços e comprávamos um saquinho de tremoços e outro de pevides e, em dias de festa, uma fiada de pinhões que eram caras como o raio.
Antes de entrar no Estádio passávamos no Lagoa. O meu pai bebia um copo de três ou uma mini e eu bebia uma Superfresco de laranja ou um Canada Dry. Isto foi antes das imperiais e do bagaço. Agora já ninguém me deixa ir com o bagaço para a bola.
Lembro-me de uma época no Estádio da Luz, em jogos da UEFA, jogos que eram à noite mas em que entrávamos no Estádio a meio da tarde, armados de Tupperwares com rissóis e croquetes e pastéis de bacalhau e torresmos que depois embebíamos em cerveja adquirida nas bancadas que havia sempre gente a vender as coisas necessárias à nossa satisfação.
Nessa altura não havia claques de futebol. Os adeptos eram toda uma claque que incentivava os jogadores, chamava ladrão ao árbitro e cabrão ao jogador adversário.
Havia sítios onde as coisas eram mais perigosas. Acompanhar a União de Leiria aos Marrazes, à Marinha Grande, à Nazaré ou à Vieira de Leiria poderia ser perigoso. Especialmente se fôssemos uns adeptos daqueles que nunca se calam. E éramos. As Caldas também era grande rival mas nunca rivalizou grande coisa.
Nessa altura A Bola saía três vezes por semana, havia dois canais de televisão e só um tinha um programa sobre bola e o indicativo do Domingo Desportivo era o Blue Monday dos New Order.
Era normal encontrar nas imediações dos Estádios vários carros onde as senhoras esperavam os seus maridos fazendo renda ou tricot.
Tudo mudou com a chegada da morte.
Com a chegada da morte do meu pai, deixei de ter companhia para os jogos e deixei de ir com tanta frequência. Com a morte de um adepto no Estádio e depois a ascensão das claques de futebol, deixei mesmo de ir.
O futebol é somente a porra de um jogo. Gosto de me empolgar, mas é só um jogo. Não quero que a minha vida seja posta em causa por causa de um jogo. Gosto de me sentir livre.
Continuo a gostar de futebol, mas o futebol para mim é já um jogo de televisão. Um jogo de televisão e em casa. Em casa posso comer e beber o que quiser. Em casa posso ter bandeiras com paus, ripas ou o que for. Em casa posso ver o jogo nu. Em casa posso desligar a televisão quando as coisas não correm de feição. Em casa posso mandar toda a gente para o caralho que ninguém se sente ofendido. Em casa mando eu. Em casa mando eu quando a minha mulher me deixa mandar.
Mas tenho saudades. Saudades de ir livre a um Estádio ver um jogo de futebol.
Acho que é isto a velhice. A saudade de um tempo que já não é.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/11]

Keep on Pushing, Push the Sky Away

O coração disparou. Começou a bater muito depressa. A um ritmo louco que o meu corpo parecia não conseguir acompanhar. Eu parei. Levei a mão ao coração e senti as batidas. Não era o tum-tum habitual, era um tum-tum-tum-tum-tum de quem está a querer saltar fora.
Keep on pushing. Keep on pushing. Push the sky away.
Assustei-me.
Senti uma pontada no peito. Podia ser no coração. Ou nos pulmões. Fiquei parado. Não conseguia mexer-me. Não conseguia tirar a mão do coração. E continuava a sentir a percussão em ritmo alucinado, cavalo com freio nos dentes. Tum-tum-tum-tum-tum… Como se estivesse a correr desalmadamente.
Encostei-me a uma montra. Vi pessoas a passarem por mim, a olharem-me e a fazerem má cara. Vi as pessoas a assustarem-se comigo. Eu estava encostado à montra, com uma mão no coração, e ouvia o tum-tum-tum-tum-tum em altos berros.
Keep on pushing. Keep on pushing. Push the sky away.
Virei-me. Apoiei as costas na montra e deixei-me deslizar até ao chão. Deixei-me ficar lá sentado. A mão no coração. A tentar fechar-lhe o caminho de saída. A tentar ultrapassar a angústia que começava a espalhar-se por mim, pelo corpo e, especialmente, pela cabeça.
Fechei os olhos. Baixei a cara. Tentei controlar a respiração. Inspirei profundamente pelo nariz e depois expeli o ar todo pela boca, até não restar nada nos pulmões. Repeti várias vezes. Até começar a acalmar. Até sentir a desaceleração das batidas do coração.
Depois levantei a cabeça. Olhei para o céu. Estava a passar um avião, lá muito em cima, lá muito longe, daqueles que vão deixando um rasto branco pelo caminho. E acompanhei-lhe o trajecto até o perder de vista.
Keep on pushing. Keep on pushing. Push the sky away.
Levantei-me. Ignorei o dono da loja à porta de entrada incomodado com a minha presença. Ignorei as pessoas que olhavam ostensivamente para mim, da mesma forma que olham para um acidente, ou para umas obras, daquelas com enormes estaleiros.
O meu coração serenou. Eu serenei.
Tirei os auscultadores dos ouvidos. Não conseguia continuar a ouvir o Nick Cave. Há dias em que não é possível.
E segui caminho.
Não era amor, nem paixão.
Era taquicárdia. Acho que tenho exagerado no ventilan.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/10]