A Manada

Era Sexta-feira.
A Manada saía de casa e ia divertir-se para a noite.
A casa da Manada, contudo, era uma cela na cadeia do Linhó. A Manada passava a semana na cadeia e, ao fim-de-semana, abriam-se-lhes as portas da rua para que pudesse dar azo à sua brutalidade existencial.
Claro que a Manada não podia ser brutal no interior da cadeia porque por lá só havia homens. A Manada não gostava de exercer a sua brutalidade contra homens. A Manada tem cu e, quem tem cu, tem medo.
A Manada só conseguia ser brutal com mulheres. Porque a Manada só tinha força contra quem não tinha força para revidar. Contra quem era mais fraco. Quem estava mais só. Indefeso.
A Manada era um grupo de gajos de pila encolhida que se excitava com o medo que incutia nos outros. Nas outras.
O juiz que julgou e condenou a Manada era corporativo e achou por bem deixar, na condenação, à qual não podia fugir, uma linha de escape: aos homens o que é dos homens, às mulheres o que é das mulheres, à Manada o que eles quiserem.
Portanto, era Sexta-feira.
As portas abriram-se e a Manada saiu, de cornos no ar, a bufar, furiosa, à procura de diversão.
Saíram do Linhó.
Iam a abrir pela Marginal. O pé a carregar no acelerador. As latas de cerveja a serem despejadas, amachucadas e lançadas janela fora. A unha do dedo mindinho, grande, que não era cortada, mas cuidada e limada, entrava no frasquinho e levava pó às narinas fumegantes e excitadas.
Onde estão? Onde estão? Gajas! Queremos gajas! Mu!
Foi numa curva, por sinal bem ligeira, ali em Paço d’Arcos, que a Manada, ao ultrapassar uma carrinha de farturas, entrou aos papéis, as mãos não conseguiram agarrar o volante, a falta de cintos de segurança levou a que a Manada andasse aos trambolhões dentro do carro que guinou, virou-se, capotou e foi a deslizar estrada fora até cair no mar.
O carro foi engolido.
Nenhum deles sobreviveu.
A noite de Lisboa suspirou aliviada.
No Sábado seguinte, à noite, todas as mulheres saíram para dançar, beber, fumar, divertirem e dizer sim ou não conforme quisessem. E se quisessem.
A Manada foi enterrada em silêncio e solitária em vala comum.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/22]

Welcome to Everywhere

Vou de viagem.
Estou entre sítios. Nem sei bem onde estou. Estou aqui, mas não sei onde.
Estou parado numa encosta. À minha frente abre-se o vale e lá em baixo corre um rio.
Sento-me a entrada do quarto. Estou num pequeno motel nas montanhas. Ouço o chilrear dos pássaros. Os rápidos a correr lá ao fundo.
Agarro na guitarra, ligo o Fostex e ponho-me a gravar uma música.
Tinha o início de uma letra e uma malha para a guitarra e parto daí. Vou improvisando. No fim ouço o resultado. Não está mal. Agarro na Moleskine e aponto as alterações a fazer. Rescrevo a letra. Assento umas notas. Umas linhas musicais.
Acendo um cigarro. Dou uma volta a pé, ao redor do meu quarto até acabar o cigarro. Aproximo-me da recepção. Apago a beata num canteiro de flores. Entro.
Dou uma vista de olhos nos jornais e revistas. E depois vejo. Vejo a revista Time. Vejo a capa da revista Time. Welcome to America.
Foda-se.
Welcome to America.
Paragem de digestão.
Febre.
Vómitos.
Os braços tremem. As pernas também.
Largo a revista no balcão e saio da recepção.
Volto ao quarto. À entrada do quarto.
Estou nervoso.
Agarro na guitarra.
Agarro na guitarra, levanto-a acima da cabeça e faço-a descer rápido e com força contra o chão. E repito o gesto várias vezes até não restar já nada de aproveitável.
Welcome to America.
Respiro fundo. Repito. Respiro fundo.
Ligo o Fostex e deixo-o a gravar o ambiente. Os pássaros. O rio. Os rápidos lá ao fundo.
Lá do fundo vem um grito. Vários. Um tiro. Dois. Três tiros. Confusão. Gritos. Mais tiros.
Continuo sentado. Deixo o Fostex continuar a gravar. Olho para o rio, tão bonito, ladeado de árvores frondosas, a correr lá em baixo, ao fundo. Gente a correr numa das suas margens. Gente a fugir. Gente a fugir com medo.
Welcome to everywhere.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/21]

Mão Morta, Mão Morta Vai Bater Àquela Porta

Estávamos encostados à entrada de uma porta de prédio a fumar. O charro circulava. Mas fumávamos depressa porque estávamos atrasados. Estávamos todos atrasados para o mesmo.
Matámos o charro e fomos.
Aguentámos a fila cheia e caótica. Rimos. Rimos bastante. Rimos feitos parvos.
Quando chegámos lá dentro fui buscar uma cerveja e arranquei para o pé do palco. Perdi os outros tipos que devem ter ido para a casa-de-banho. Mas eu tinha de aguentar. Queria ficar ali. Queria ser o primeiro.
Ao meu lado foi chegando mais gente. A frente do palco ficou cheia. Uma miúda virou-se para mim com a mão levantada e perguntou-me Queres? e eu disse Sim. E enfiou-me não-sei-o-quê na boca e eu engoli o não-sei-o-quê e empurrei com um gole de cerveja.
Depois chegou a banda e começou a tocar. E eu via e ouvia e delirava.
Uma pedra!, diria eu mais tarde.
Um concerto do caralho!, reforçaria.
Mas a verdade é que a partir de certa altura o concerto se tornou uma coisa muito estranha.
Lembro-me do vocalista aproximar-se de mim, com uma ponta-e-mola na mão e ameaçar-me. Tentou por duas vezes espetar-me a navalha entre os olhos e não conseguir e depois, acabou por cortar a própria perna.
Eu vi o tipo gritar, levantar a mão com a navalha, e depois baixá-la uma, duas, três, quatro vezes, e cada vez que baixava a mão com a navalha, cortava a perna. Primeiro as calças, depois, cada vez que a mão descia, o sangue esguichava. A minha t-shirt acabou cheia de sangue e eu senti-me uma elemento da história daquele concerto.
Entrou um roadie com uma fita, e enrolou a fita na perna do vocalista e fez um garrote.
Os músicos olhavam uns para os outros e não sabiam se deviam continuar, mas o vocalista continuava em êxtase, a cortar a perna, a lançar sangue para o público e aos pulos acompanhando o ritmo cadente do baixo, até que caiu de borco no chão. E já não se levantou.
Os músicos ainda tentaram continuar, repetiram a malha várias vezes à espera que o vocalista se levantasse. Mas tal não aconteceu. Ele caiu e não se levantou mais.
O roadie entrou em palco com outro tipo e levou o vocalista embora. Depois, o baterista levantou-se e saiu, também. O baixista seguiu-o. Por último o guitarrista fez um solo, deixou a guitarra em loop e foi também embora.
Ao meu lado parecia tudo maluco. Dançavam aos murros e pontapés uns aos outros.
Eu queria sair e não conseguia. Eu queria ir embora mas não me consegui mexer.
Ainda aqui estou à espera que alguém me venha buscar. Já não aguento o cheiro a sangue na minha t-shirt.
Quero ir tomar banho. Quero mijar. Quero uma cerveja. Um cigarro. Uma gaja.
Mais um não-sei-o-quê.
Foda-se! Uma Pedra! Que concerto do caralho!

[escrito directamente no facebook em 2018/06/20]

Enquanto o Sangue Fluía

Entrei na loja e ouvi-o.
É daquelas vozes a que não se consegue fugir. Monocórdica. Persistente.
Eu entrei na loja por engano. Julgava que era um quiosque de jornais, onde esperava encontrar A Bola do dia, mas afinal era uma daquelas lojas de bric-à-brac onde se vendem produtos de ocasião, aquelas coisas que ninguém procura mas que, quando se encontra Oh, tão fofinho!, pensa-se como foi possível viver toda a vida sem.
Aquela voz estava a tentar vender um produto de revenda. Falava das qualidades, do fantástico que era, mas a voz não transmitia nada disso. Não transmitia emoção. Desejo. Vontade. Era uma gravação aprendida numa aula de formatação.
E pensei Como se pode vender algo em que não se acredita?
A voz sabia tudo sobre o produto em questão. A voz respondia a todas as dúvidas lançadas sobre o produto em questão. Mas a voz não queria vender aquele produto. Queria só vender. Porque era esse o seu trabalho. Não a vocação.
Depois de ter dado um giro à loja e, finalmente, ter percebido que não havia ali jornais, acabei por sair.
Cá fora encontrei-a à minha espera, encostada a um corrimão, à sombra, debaixo de uma árvore, a tentar fugir do sol quente.
Deu-me um beijo.
Trinquei-lhe o lábio enquanto nos beijávamos.
Senti o cheiro do sangue que lhe escorria, numa pequena gota, pelo queixo abaixo. E lambi-o. Lambi o sangue. Excitou-me.
Abracei-a e fomos, abraçados, à procura d’A Bola.
Pelo canto do olho vi-a a lamber-se a si própria. Não desperdiçava uma gota de sangue. Mesmo que fosse o dela.
Aproximava-se o meio-dia e era melhor regressarmos a casa. Tinha de encontrar A Bola rápido. Enquanto o sangue fluía.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/19]

Todas as Gajas São Bipolares

Era meia-noite.
Era meia-noite e eu já estava bêbado.
Virei-me para a gaja e disse Eu acho que todas as gajas são bipolares.
Ela ficou parada a olhar para mim. Durante muito tempo olhou para mim e não disse nada. E depois conseguiu largar O que é que queres dizer?
Não sabia.
De verdade que não sabia o que é que queria dizer com aquilo.
Acho que só queria chocá-la. Mandar assim uma bojarda para atordoar.
Mas depois comecei a pensar. A pensar nas gajas que tinham passado pela minha vida. Pela minha cama. Pelos meus braços. E, pensei Mas não são? Todas?
Não queria ser injusto. Sim, não queria ser injusto. Mas desfilei todo o meu historial de relacionamentos e os caminhos por que enveredaram e cheguei à conclusão que: Primeiro Eu estava louco e Segundo Todas as gajas mudavam de personalidade consoante estavam na cama ou na mesa comigo.
Não seria eu o bipolar?
Isto aconteceu durante o jantar. Não conversámos mais até ao fim.
Quando chegaram os cafés, bebi o meu sem açúcar para despachar o drama. Ia levá-la ao táxi e Adeus, até um dia destes.
Não sei porque disse o que disse.
Não sei porque raio não aprendo a calar a boca.
Elas são bipolares (e sim, são quase todas bipolares), mas eu tenho a porra de uma boca enorme que não consigo calar.
Fui para casa e não consegui dormir a noite inteira.
Acho que fui atormentado pela minha própria bipolaridade.
Chorei. Ri. E não preguei olho. Mas claro, estava bêbado.
No dia seguinte parecia um zombi mal dormido.
Precisava de aprender a calar a boca.
Sou o meu próprio inimigo.
De manhã, quando me levantei, tive de ir a correr para vomitar na retrete.
Passei o dia seguinte com a porra de uma azia.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/18]

O Privilégio

O sol tirou-me de casa.
Fez-me sentar na varanda. Depois obrigou-me a preparar um gin.
Tive de guerrear para conseguir ir buscar um maço de cigarros. Parece que estava muito calor, demasiado calor para fumar.
Sentei-me na varanda a bebericar o gin e a fumar cigarros.
Liguei a rádio. Queria a TSF mas não se apanha na zona baixa da cidade. Só havia estática. Desliguei. Fiquei em silêncio. Só com o bruá da cidade.
Transpirei.
Tirei a t-shirt e fiquei em tronco nu. Ninguém me viu. Ninguém me vê.
Via, ao longe, gente a passear debaixo do sol abrasador. Pensei Aquela gente é doida, mas percebi que estavam a recuperar de um Inverno que parecia não mais terminar.
As costas ao léu, das raparigas, estavam muito branquinhas. Tal como as pernas dos rapazes que ousavam os calções.
Eu estava em calções, mas ninguém me via. Ninguém via a cor das minhas pernas. Nem se eu tinha, ou não, varizes. E não tenho.
Adormeci. Adormeci com o cigarro na mão.
Acordei com um borrão de cinza enorme nos dedos. Não caiu ao chão. Levei-o, com cuidado, ao cinzeiro. Deixei-o cair e desfez-se. O gin era já só água, do gelo derretido.
Fui fazer outro. Faço gins simples, sem grandes merdas. Limão espremido. Gelo. Água Tónica e gin. Bombay. Chega.
Voltei para a varanda. Acendi novo cigarro. Beberiquei o gin.
Voltei a olhar para a rua, a sentir o calor que se fazia sentir lá fora, e pensei. Pensei que era um privilégio. Aquela varanda fazia de mim um privilegiado. Dali podia assistir ao mundo. Dali podia fugir às pessoas. Dali podia ser o que quisesse. Fazer o que quisesse. Sobreviver, ou não, se quisesse.
Ali era.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/17]

A Despedida

Estava sentado à mesa.
Estava sentado à mesa com o copo de vinho tinto na mão a desejar-lhe as maiores felicidades.
Fazia agora três anos. Três anos de ausência e saudade.
Três anos tristes em que vivi preso no lamaçal. Três anos em que as lágrimas me alimentaram a alma.
Agora estava ali sentado, a mesa posta para duas pessoas, a encetar um jantar que queria brilhante.
Costeletas de borrego grelhadas no carvão acompanhadas de esparregado de espinafres. Era o seu prato de eleição. Ela que nem gostava de borrego, mas as costeletinhas assadas eram um mimo que devorava à mão e lambia os dedos.
Acompanhava com um Mouchão tinto. Caro mas merecido.
Servi-me. Comi as costeletas à mão e fui falando, fui contando as estórias, as várias estórias que fomos vivendo nos anos todos que nos acompanhámos vida fora. Lambi os dedos. Um a um. Como se fossem os dela.
Cada copo de vinho rendido em homenagem. À tua. À tua que tanta falta me fazes. Tchim-tchim.
Mas acabou.
Tinha de acabar.
Queria seguir em frente.
Precisava de seguir em frente com a minha vida.
Aquele foi o adeus, o encontro de despedida. O encontro em que lhe repeti o quanto a amava, sim, a amava ainda, mesmo depois de três anos de ausência, mas precisava de seguir em frente.
Juntei todas as coisas dela num caixote. Fui até à praia e deitei-lhe fogo. Vi as cinzas serem levadas pelo vento mar adentro e gritei-lhes Vão ter com ela. Encontrem-na.
Acabei as costeletas de borrego. Acabei o esparregado. Despejei a garrafa. Comi e bebi por mim e por ela.
Dei uma volta pela casa. Cheirei. Vasculhei. Olhei a toda a volta, em todo lado. E descobri que já nada ali restava dela. Nem o cheiro. Nem a imagem. Nem os despojos.
Nunca a visitei no cemitério. Para mim ela tinha continuado por aqui. Comigo. Durante estes últimos três anos.
Mas hoje despedi-me.
Não queria mais lágrimas.
Hoje decidi renascer.
Mantenho aqui, neste cantinho, um bocado dela que não irá nunca desaparecer. Mas vou em frente. Estou cansado de viver com fantasmas. Preciso de pessoas. Preciso de sentir. Tocar. Ser tocado. Preciso de voltar a amar. E ser amado.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/16]