A Picadela do Peixe-Aranha

Eles chegaram à praia e trouxeram o barulho.

A praia estava quase vazia, mas escolheram, precisamente, aquele espaço ali ao meu lado.

O pai desatou logo a peidar-se. A mãe disse Então, Zé? Não estás em casa!, e o filho mais novo começou a rir, estridente, e acabou a rebolar no chão. A filha, um pouco mais velha, uma adolescente já com outros interesses, ignorou por completo a família, estendeu a tolha, despiu o vestido e largou-se com o fato-de-banho mínimo a bronzear-se.

O pai foi a correr ao mar, ainda de calções e t-shirt, mergulhou atabalhoadamente, e regressou molhado e foi sacudir-se para cima da filha que fez sair um Foda-se, pai! Que levou a mãe e o irmão a rir.

Eu bufei.

O pai despiu a roupa, ficou nu e nu andou a pendurar a roupa molhada em cima do chapéu-de-sol até a mulher lhe dizer Oh, Zé, não andes a mostrar as vergonhas que quem fica com vergonha sou eu! E o filho riu e a filha olhou para mim e fez má-cara a tentar encontrar em mim um aliado contra a família.

Não respondi. Virei costas à família e deitei-me ao contrário, a tempo de ver chegar outra família a assentar arraiais à minha beira. Oh, que caralho.

O pai chegou e partiu. Foi caminhar. A filha despiu-se, passou bronzeador pelo corpo enquanto olhava para mim a olhar para ela e depois deitou-se, com o rabo virado para mim, e deixou-se adormecer. A mãe agarrou-se ao telefone. Nunca mais o largou.

Entre os peidos do pai de uma família e os telefonemas da mãe da outra, não sabia o que fazer.

Levantei-me e fui ao mar.

Estava a tentar entrar na água, entrando centímetro atrás de centímetro a tentar sobreviver ao frio atlântico, quando pisei no que supus ser um peixe-aranha. Uma dores diabólicas. Gritei um Caralho, foda-se! que fez toda a gente olhar para mim. Caí na areia. As ondas passavam-me por cima.

Um nadador-salvador foi lá puxar-me para terra. À minha volta uma série de curiosos. Alguém disse Mordida de peixe-aranha! E logo outro alguém que estava a fumar disse Queima-se a ferida para não infectar, e agarrou-me o pé, soprou para o cigarro para intensificar o borrão de cinza e queimou-me o pé, eu gritei, mandei o tipo P’ró caralho! e o nadador-salvador disse Tenho ali um desinfectante e foi buscá-lo e entretanto chegou o pai da primeira família e disse que O mijo desinfecta tudo, sacou da pila e mijou-me no pé à frente de toda a gente e eu mandei-lhe um pontapé nos tomates e saí dali a coxear, apanhei a minha toalha, a roupa e os chinelos e fui embora da praia.

A partir de amanhã só vou para a piscina e nas horas de maior calor.

Odeio pessoas.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/28]

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