Parado à Beira-Mar sem Me Conseguir Mexer

Desci à praia.
Desci aquele caminho íngreme até à praia. De calções de banho, toalha ao ombro, chapéu na cabeça e o telemóvel na mão.
Cheguei à praia e caminhei ao longo da beira do mar para fora da confusão. As pessoas têm tendência para se aglomerarem à entrada ou saída. Querem estar prontos para o que der e vier. Eu, ao chegar à praia, tive que fugir à multidão acumulada logo ali, depois da descida da enorme ladeira.
Afastado, estendi a toalha, sentei-me, olhei o telemóvel e vi que não tinha rede.
Deitei-me. Estava quente. O barulho das ondas do mar a morrer na areia embalava. Deixei-me adormecer.
Acordei transpirado. Estava com a boca seca. E sem água para beber.
Fui ao mar.
Entrei devagar. Molhei-me. Mergulhei. Nadei um bocado em frente. Voltei para trás. E saí.
Fiquei em pé ali, a olhar o mar. Chegou uma rapariga. Começou a entrar devagar também. De repente, falhou-lhe o pé. Tropeçou e caiu. Ficou debaixo de água. Nunca mais subia. Comecei a ficar nervoso. Apareceu uma mancha vermelha, vinda lá debaixo. Sangue, provavelmente. E eu não conseguia mexer-me. A mancha era cada vez maior.
Um rapaz passou a correr por mim, mergulhou rápido e nadou até à mancha vermelha. Depois emergiu com a rapariga desmaiada nos braços.
Olhei e vi o pé da rapariga tombado, virado ao contrário, com um pedaço de osso de fora e sangue a cair abundante para o chão.
O rapaz passou por mim e foi a correr, com a rapariga nos braços, praia fora. Começou a juntar-se gente a acompanhá-lo.
Eu fiquei ali parado, à beira do mar, sem me conseguir mexer.
Até que lá acabei por sair, arrastando-me até à toalha, preocupado com a minha inércia. Sentei-me. E olhei o mar. E o mar estava a desaparecer.
Estava a cair um nevoeiro tão rápido tão rápido que começou a apagar toda a praia, o mar, a areia, as arribas, as pessoas, a miúdas, os rapazes, o cão, tudo…
Levantei-me depressa, peguei na toalha, no chapéu, no telemóvel e tentei correr, nos limites do que me é possível correr, para sair da praia. Passei por cima de outras pessoas, de toalhas, de chapéus que acabei por deitar ao chão.
Estava cansado. A subida era terrível. Tive de parar várias vezes. O nevoeiro perseguia-me mesmo. Estava a comer o que eu deixava para trás. Estava a morder-me os pés. Até que, finalmente, atingi o cimo da arriba. Estava acima do nevoeiro. A praia tinha sido toda comida. A praia e os veraneantes que tinham ficado lá em baixo.
Consegui sobreviver.
Ainda vi a rapariga a ser colocada dentro de uma ambulância do INEM que partiu de sirenes a gritar a dor alheia.
O nevoeiro olhava para mim e ameaçava-me. Que porra se passa comigo?

[escrito directamente no facebook em 2018/06/23]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s