Formas de Me Deixar Desconfortável

Vinha da praia.
Vinha cansado, salgado, a pingar e cheio de sede.
Entrei na esplanada. Acendi um cigarro. Pedi um copo de Alvarinho. Bem fresquinho que estava com sede e a morrer de calor.
Ao fundo, na sombra, uma tela projectava um jogo do Campeonato do Mundo de Futebol na Rússia. Já não sei que países se defrontavam. Nem me recordo das cores. Mas o bailado estava bonito. A bola movimentava-se de um lado a outro. Os jogadores corriam, lançavam a bola em profundidade, e acabaram por marcar vários golos. Já não recordo quantos. Mas alguns.
Acabei o copo.
Pedi outro.
Entrou outro eu na esplanada. Alguém que também chegou molhado, cansado e, aparentemente, cheio de sede. Trazia um cão pela trela. Era um misto entre o Labrador e o Terrier. Na verdade nem sei que cão era. Visualmente fazia lembrar-me uma mistura entre os dois.
O tipo pediu um gin daqueles esquisitos cheio de coisas a boiar em copo extra-large.
Sacou de um ventilan do bolso e mandou uma bombada. Depois virou-se para o cão, levantou a ponta da trela, em jeito de ameaça e disse Deita! Deita, já disse! Queres que me chateie?
O cão até estava calmo. Em pé, mas calmo. O dono é que parecia agitado.
Aquilo incomodou-me. Acendi outro cigarro no resto do anterior.
Pensei que os cães já podiam entrar nos sítios públicos, nos cafés, nos restaurantes, nas esplanadas.
E pensei nas pessoas que têm fobia aos cães. Pensei nas pessoas, nas crianças, que têm medo de cães. Nas pessoas que já foram mordidas e que agora fogem aos animais e que acabam por ter de partilhar o mesmo espaço com eles.
Beberiquei um pouco do Alvarinho. Estava bem fresco. Gaita, sabia-me mesmo bem.
Olhei para o tipo e para o cão e percebi que ali, naquele momento, naquela situação, o problema nem era o cão. Era o dono.
O dono do cão estava a deixar-me desconfortável. Era uma personagem nervosa. Irritável.
Levantou a pega da trela e bateu com ela no focinho do cão. Duas vezes. Deita! Deita, já disse! E o cão deitou. Chegou o gin e o tipo bebeu quase metade do copo no primeiro gole.
Eu não conseguia mais estar ali.
A esplanada tinha-me parecido um refúgio. Um espaço para um momento. Uns copos para relaxar numa espécie de oásis. Onde recuperar forças.
Mas já não era. Não aquilo.
Não! Não aquilo!
Acabei o copo. Larguei cinco euros na mesa na esperança que chegasse para pagar os dois copos que bebi. E saí da esplanada.
Precisava de calma na minha vida. Muita calma.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/24]

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