Ri-te Agora, Cabrão!

Já jantei.
Ninguém sabe onde eu estou. E, então, agora que já passou Maio, o belo mês de Maio, mês da Feira e da cidade do Lis, agora que os feirantes já foram embora, agora que a polícia começou a preparar-se para a chegada dos emigrantes e não tem tempo para outras estórias, agora que já passou tempo e não houve consequências, e agora que já estou de barriga cheia (comi um T-Bone a esguichar sangue bem regado com um Quinta do Mouro tinto 2010), já posso contar o que aconteceu.
Estava na fila do Penim para comprar duas farturas (uma para mim e outra para a minha mãe – ela gosta muito das farturas do Penim). Estava calor. Um sol diabólico num dia de um azul forte e sem nuvens. Transpirava. Sentia o meu cheiro e o dos tipos na fila, à frente e atrás de mim. Todos a transpirar. A transpirar que nem cães.
Chegou-se um velhote de bengala e foi lá à frente, à rulote, e pediu uma dúzia de farturas. Lá à frente as pessoas começaram a refilar. Vai para a bicha, velho, diziam. Bicha és tu, pá, eu sou um ancião e tenho prioridade, respondeu.
Tinha razão. Tinha prioridade. É um privilégio da idade, poder fintar a fila do Penim em dia de muito calor e sol abrasador.
Toda a gente se calou. Olharam uns para os outros constrangidos.
O velhote foi atendido. Pegou nas suas farturas e foi embora. Com um sorriso cínico nos lábios.
A fila retomou a sua marcha lenta.
Foi preciso esperar que se fizessem mais farturas.
O odor da transpiração aumentava. Eu derretia debaixo do sol. Tinha sede. Queria um chapéu. Um gelado. Mergulhar nas águas geladas de São Pedro de Moel. Um cigarro. Ah, o que eu dava por um cigarro! Mas não tinha nenhum. E atrás e à frente só gente verde. Estupidamente verde.
Finalmente, ao fim de quase uma hora de pára-arranca debaixo do sol, chegou a minha vez. E então, ou esperava mais um bocado por novas farturas que ainda estavam a fritar ou levava dois cus de fartura, mal feitos, tortos e já frios. Depois de tanto tempo decidi levar as duas farturas frias e mal feitas – as pontas. Ora porra!
Ia eu com o meu saquinho a dizer Farturas Penim pela mão, a dar-a-dar, quando me cruzei com o velhote que estava a distribuir as farturas pelos dealers da cidade – sim, eu conheço-os todos. Estavam a rir, os cabrões. A mamar cerveja de litrosa, que passavam de mão-em-mão, e a devorar as belas farturas. Uma verdadeira festa.
Eu parei. Eu parei a olhar para eles. Senti-me cansado. Saturado. Senti-me enganado. Começou a despertar-me um nervoso miudinho. Fui acometido por uma fúria que me fez rebentar borbulhas pelo corpo, pelos braços e pelas pernas. A minha cara, vermelha do calor e do sol apanhados na fila, ficou púrpura.
Respirei fundo. Larguei o saquinho das farturas no chão. Agarrei o canivete suíço. Abri-o. Aproximei-me dos dealers e em movimentos de bailado, rápidos e seguros, cortei-lhes as gargantas a uma velocidade mentirosa – daquelas que ninguém que não tenha visto pode acreditar. Eram cinco e, quando cortei o quinto, já o primeiro jazia sem respirar e os outros deitavam golfadas de sangue do pescoço, sem conseguir gritar.
Deixei o velhote para o fim.
Era mesmo velhote. Não conseguia correr. Tentava fugir agarrado à bengala. Aproximei-me dele. Estava mijado. Olhei-o nos olhos. Senti-lhe o medo. E perguntei-lhe Agora não te ris?
Tirei-lhe a bengala da mão e parti-a.
Agarrei o saquinho das farturas.
E fugi.
Fugi da cidade.
Escondi-me.
Ninguém sabe de mim.
Quando me esquecerem, quando já não souberem quem eu sou, regresso à cidade para ver a minha mãe. E talvez levar-lhe outra fartura do Penim.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/05]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s