Os Santos Populares Consumiram-me o Juízo

Estávamos a meio dos anos noventa e eu vivia numas águas furtadas num pequeno largo de um bairro popular.
A cidade ainda não era turística como é hoje, mas as festas dos santos, principalmente a de Santo António, eram de arromba e arrastavam gente de todo o lado.
Foi numa dessas festas que tudo aconteceu.
A culpa foi minha. Mas não foi totalmente minha.
Estava em casa e parecia estar na rua. Um grupo de música tocava êxitos populares e fazia dançar as pessoas ali, na praça. Havia sardinha assada e broa de milho. Cerveja. Vinho tinto. Gente aos berros. Gente muito bem disposta, alegre e com vontade de se divertir, nem que fosse à bruta.
A música entrou-me pela casa dentro e não me deixava ouvir os pensamentos. O odor a sardinha assada entranhou-se na roupa. No sofá. Nos lençóis da cama.
À varanda recebia o cheiro enjoativo do vinho tinto e da cerveja derramados. O pior era mesmo no dia seguinte, com o chão a transpirar esses vapores etílicos. E o vomitado na praça, nos canteiros, à entrada de casa. As beatas formavam uma passadeira de restos frios do tabaco da véspera. Mais umas espinhas. Pequenas poças de líquidos vários. Urina por todo o lado. Preservativos.
E isto manteve-se assim por vários dias.
Vários dias a moer-me o juízo.
Vários dias a consumir-me.
Até já não aguentar mais.
No último dia fui buscar a espingarda de caça que o meu pai me deixou como herança.
Arranjei umas cervejas frescas. Uns snacks. Um volume de tabaco. Uma caixa de fósforos. Das grandes.
Coloquei-me deitado na varanda, com a espingarda apontada à praça. Bebi umas cervejas. Petisquei. Fui fumando desalmadamente.
Esperei que a música começasse.
Aguentei, de novo, o cheiro das sardinhas assadas.
Mal começou o bailarico, disparei o primeiro tiro para o cantor, que caiu logo no chão. Ao princípio, ninguém percebeu muito bem o que tinha acontecido. A banda ainda continuou durante algum tempo a tocar. À espera que o vocalista se levantasse e retomasse a canção.
Só perceberam o que se estava a passar quando disparei sobre uma rapariga que estava a dançar sozinha frente ao palco. E logo depois no homem que estava a assar as sardinhas.
Depois foi o caos. Disparei a torto e a direito, mirando alvos aleatórios, sem procurar ninguém em especial. Apontando a quem se mexesse. E toda a gente se mexia. Corriam de um lado para o outro sem saber de onde vinham os tiros. Escondiam-se atrás uns dos outros, atrás das árvores, dos caixotes de lixo, das placas, viraram para ruas e travessas, atropelaram-se uns aos outros e acabou por morrer mais gente na confusão da fuga que com os tiros da minha espingarda.
Bebi mais umas cervejas. Fumei mais uns cigarros. E disparei mais uns tiros.
Lá acabou por aparecer a polícia. Os bombeiros. Os paramédicos. Mas só me descobriram quando chegou a polícia especial.
Cercaram-me. Distraíram-me com tiros na minha direcção. Atraíram-me.
Acabaram por conseguir entrar em casa e apanharam-me vivo. Nunca me passou pela cabeça o suicídio.
Apanhei vinte e cinco anos.
Estou quase há vinte e cinco anos na cadeia.
Sobrevivi a tudo, aqui.
Não tive redução de pena. Nem licenças precárias.
Estou quase a ser um homem livre.
Vou voltar para casa.
Estou curioso para rever os meus vizinhos.
Será que se lembram de mim?

[escrito directamente no facebook em 2018/06/04]

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