Os Espantalhos e a Morte

O homem andava para baixo e para cima com um molho de canas debaixo do braço e um saco de plástico pendurado numa delas.
Eu estava sentado no alpendre e ia apreciando a ginástica que o homem ia fazendo.
Parava, espetava uma cana no chão, no meio de umas couves que estavam lá plantadas, e depois retirava um pacote prateado do saco de plástico, soprava para o encher e pendurava-o na cana.
Andava mais um pouco entre as couves e, mais à frente, repetia a acção.
Percebi que estava a fazer uma espécie de espantalhos para assustar a passarada.
E aqueles pacotes… O que era aquilo?
Acendi um cigarro e deixei-me estar a apreciar. Aquilo não parecia resultar.
O homem tinha uma horta diversificada, com couves, milho, tomates, rúcula, batatas, feijão verde e abóboras.
Já tinha espetado os seus espantalho todos mas, os pássaros continuavam a ir para lá. Para eles, aquilo era um banquete.
Ainda o vi correr com uma pá atrás dos pássaros, mas não conseguiu nada. Caiu, espetou-se numa cana e fez sangue. Amaldiçoou o céu, Deus e o Presidente da Junta.
Eu levantei-me para ir fazer um gin.
Entrei na cozinha e fui buscar a garrafa de Bombay.
Já estava a provar o gin que tinha feito, quando ouvi o primeiro tiro. Logo depois, outro.
Voltei ao alpendre para ver o que se passava.
O homem andava histérico com uma caçadeira a disparar sobre os pombos. Bufava alto.
Sentei-me no alpendre a vê-lo ao tiros. O gin estava fresco, amargo e forte.
E, de repente, lembrei-me, São os pacotes de vinho das caixas de cartão. Os espantalhos do homem eram o interior das embalagens de vinho de cartão. Ri-me com o engenho aguçado do homem.
Durou pouco esse riso. Uma bala silvou ao meu ouvido e foi-se alojar na parede ao meu lado. Que porra…!
O homem estava tão desnorteado e tão irritado com os pássaros que lhe destruíam a horta que disparava a torto e a direito, não reparando o que estava a fazer.
Não acertara em nenhum pássaro, o que o estava a irritar sobremaneira, mas já ia acertando em mim.
Continuei a beber o gin. Acendi novo cigarro. E uma outra bala partiu-me o cigarro a meio. Assustei-me. Por pouco não me levava o nariz atrás. Caralho do homem!…
Levantei-me e fui buscar a minha caçadeira.
Voltei a sentar-me no alpendre. Acabei com o gin. Deitei a beata para o chão. Esmaguei-a com o pé.
O homem continuava a correr pela horta, para cima e para baixo, a disparar à toa contra os pássaros sem lhes acertar uma única vez.
Lá em cima, no céu, apareceram uns abutres a planar em círculos, em torno do homem.
Estavam a adivinhar.
Eu mirei o homem.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/06]

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