Oh, Pá!…

Os anos oitenta começaram nojentos.
Tinha acabado a década anterior a experimentar os primeiros fumos de haxixe nos pequenos cachimbos feitos da prata dos maços de cigarros, fumados às escondidas nas rochas da praia velha do Pedrogão e os meus amigos a juntarem-se para me dizerem Sai da droga. Sai da droga, pá! e eu não saí porque aquela merda era boa e abria-me a mente e os livros que li na altura acabaram por ser como as cebolas, com várias camadas que ia descobrindo à medida que voltava atrás quando perdia o capítulo em que tinha ficado – eu não conseguia dobrar os cantos das páginas dos livros, ainda hoje não o faço -, e a música passou a ser quadrifónica, os filmes em technicolor, o céu ficou azul petróleo, o mar de São Pedro de Moel o melhor do mundo e o frio do Atlântico não afectava um adolescente cheio de tesão, a pila ainda não ficava mais pequena, e as miúdas davam vontade não sabia bem de quê mas a perceber que eram muito mais fixes do que eram quando éramos mais novos e as suas bocas molhadas e quentes provocavam reacções extremas no meu corpo que me deixavam muito bem disposto e foi por elas que recomecei a ir à missa aos Domingos de manhã, onde se encontravam todas e as podia convidar para ir à matiné de cinema ao Teatro José Lúcio da Silva.
Comecei assim, a década seguinte muito interessado nas miúdas e a descobrir o sexo. O sexo teórico. As palavras, os conceitos, a Gina, a Tânia, que era a prima mais barata da Gina, a Playboy brasileira, os filmes em super 8 do pai do gajo lá da rua de quem não vou dizer o nome, e as mãos dadas e transpiradas, e as maminhas por cima do soutien e das camisolas, mas Oh! Porra! Que é tão bom, quando, num momento de discussão estúpido durante um jogo de futebol entre Benfica Sporting da Malta da Rua e eu e o tipo a empurrarmo-nos com os ombros, em ameaças pueris, O meu pai é melhor que o teu!, A tua mãe é uma vadia, e o dislate máximo Chupa-mos! e eu a dizer Tira cá para fora e ele tirou, baixou os calções e tirou cá para fora e eu baixei-me à frente dele, puxei do fundo das fossas nasais e armazenei tudo na boca, mastiguei, preparei e soprei o escarro verde e fumegante em direcção aquela pila ainda sem pintelhos e o tipo olhou, viu o escarro a cair pendurado na pila, nojento e disse Oh, pá…

[escrito directamente no facebook em 2018/06/08]

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