Um Hambúrguer Gourmet no Prato

Fiz um hambúrguer para o jantar.
Fiz uma torre de comida que não consegui colocar inteira na boca para dar uma trincadela.
A minha composição era tão dramaticamente grande que acabei por desfazê-la e comer tudo no prato, em separado. Fiquei triste. E furioso.
Tanto trabalho.
Tento tempo despendido.
E um esforço inglório.
Pensei que bastava abrir muito a boca, mas a minha boca, afinal, não abre assim tanto.
Até comprei pão de hambúrguer. Um pão que parece bolo. Uma coisa nojenta. Tem umas sementes em cima e tudo, que se enfiam entre os dentes e chateiam. Foi difícil tirá-las. Tive de usar fio dentário. Mas pronto…
Uma fatia de pão, um bocadinho torrado. Não muito para não ficar rijo. Um bocado de ketchup picante em cima do pão. O hambúrguer grelhado sobre o ketchup. Uma fatia de queijo da ilha, que o calor do hambúrguer foi derretendo. Não tinha bacon, mas tinha presunto. Uma fatia de tomate, grande, do mesmo diâmetro do pão. Umas pedrinhas de sal. Umas folhas de rúcula selvagem. Um bocado de maionese. Pickles. Uma fatia de peru fumado. Um ovo estrelado. Pimenta sobre o ovo. Cebola frita. E a outra metade do pão a fechar a obra.
Estava orgulhoso.
Primeiro, foi muito difícil manter o hambúrguer em pé. Mais difícil ainda foi conseguir agarrar no hambúrguer inteiro, precisei de esticar os dedos das duas mãos, e conseguir trincá-lo de forma a abocanhar todos os elementos utilizados na composição.
À primeira trincadela começaram a sair pedaços do interior da estrutura. Os molhos esguicharam para as mãos. O ovo rebentou. O hambúrguer, propriamente dito, escorregou para fora. A rúcula morreu. Caiu tudo no prato, com excepção da quantidade de coisas que acabou por cair para o meio do chão e me obrigou a andar lá, de cu para o ar, a apanhar, a limpar e a ficar com dores de costas, que já não tenho idade para estas acrobacias.
Foda-se!
Fiquei irritado.
Mas não me dei por vencido. Espalhei os elementos pelo prato. Ajeitei tudo com as mãos. Fui buscar talher. Um garfo e uma faca. Nada de frescura com as mãos para comer, mesmo que elas já estivessem todas gordurosas. Não tinha vinho em casa, mas fui ao vizinho do lado. Tinha um Esporão que me dispensou. Não sei onde vou arranjar dinheiro para lhe comprar uma.
Juntei umas azeitonas. Abri um pacote de batatas fritas Matutano Ruffles com sabor a presunto e dei cabo do assunto.
Soube-me bem. Matei a fome.
Mas ainda estou irritado.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/01]

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