Sou Corajoso ou um Medricas de Merda?

O tempo parou. E veio o silêncio. Só ouvia o bater do meu coração. Tum-tum.
A navalha estava encostada à minha barriga, mas estava parada. O tipo à minha frente, o tipo que agarrava a navalha que estava encostada à minha barriga, estava parado. Eu estava parado. Tudo ali à volta estava parado.
E eu pensei.
Pensei nas muitas vezes em que me confrontei com a minha coragem ou cobardia. Seria eu um herói corajoso ou um medricas de merda? Tum-tum.
Sempre quis saber que tipo de gajo era eu.
Nunca fui de andar à tareia com ninguém. Mas nunca fugi.
Não fiz a tropa. Nunca pertenci a claques nem a juventudes partidárias. Nunca participei em nenhum assalto. Mas nunca me senti com medo. Sempre andei por todo o lado, em todo o lado e sem medo. Tum-tum.
O tipo estava ali, de navalha na mão junto à minha barriga, e eu estava a pensar no que tinha pensado que fazia.
Sempre me tinha perguntado se fosse assaltado, eu seria pessoa para fugir de medo ou, por outro lado, armar-me-ia em herói e libertava a minha fúria sobre o assaltante? Tum-tum. Ficaria borrado de medo, chorava e deixava que me fizessem tudo o que quisessem ou a adrenalina mandava-me para cima do tipo aos murros com as chaves de casa entre os dedos até estender o tipo, a sangrar, no chão? Tum-tum. É difícil perceber o que somos capazes de fazer em situações limite.
O tipo continuava ali, parado, com a navalha encostada à minha barriga e o tempo retomou o seu trajecto constante rumo ao futuro. Voltou o barulho da vida. E deixei de ouvir o bater do meu coração.
Dá-me o teu dinheiro!, disse-me o tipo com a navalha na minha barriga.
Eu não senti medo, mas também não senti o apelo do heroísmo. Levei as mãos aos bolsos das calças e tirei uma nota de vinte euros. É o que tenho, disse-lhe.
O tipo agarrou na nota de vinte e aproximou-se de mim, com a navalha sempre encostada. E enfiou a mão nos bolsos da frente das minhas calças.
Encontrou um isqueiro Zippo prateado fosco, e umas moedas que não chegavam a cinco euros.
Eu tirei-lhe o Zippo da mão e disse-lhe Não! O Zippo, não!
E preciso das moedas para apanhar o Metro.
Eu estava no meio dos túneis do Metro no Marquês de Pombal, em Lisboa. Era meia-noite. Já passava. Estávamos os dois ali sozinhos. O tipo tinha a navalha encostada à minha barriga. Olhou para mim. Olhou para o Zippo na minha mão. E voltou a colocar as moedas no bolso das minha calças. Ok, disse. Obrigado, disparou enquanto se afastava de mim por um dos túneis do Metro.
Eu fiquei ali parado por momentos. Não estava com medo. Também não me apeteceu bater-lhe. Nem ir fazer queixa à polícia. Tive pena do tipo. E fiquei contente comigo.
Nessa noite percebi quem eu era.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/03]

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