O Meu Mundo Violado

O tipo estava caído aos meus pés. Dobrado sobre ele próprio. Eu estava nu, em pé, a olhar para ele ali caído, e indeciso se continuava a bater-lhe ou se chamava a polícia.
Não gosto disto.
Não gosto que me façam estas coisas.
Eu estava em casa, sozinho. Deitado na cama. Nu. Estava deitado na cama mas a ver um filme. Já era tarde. Não sei que filme estava a ver. Um daqueles film noir que passa nas televisões por cabo às tantas da manhã.
Estava a ver o filme quando ouvi um barulho enorme na cozinha. E pensei Lá se vão as garrafas de vinho. Foi logo o que pensei, que as prateleiras onde tenho as garrafas de vinho tivessem cedido ao peso e deixado cair as garrafas no chão.
Imaginei a minha cozinha como o Lagoa antigo. O cheiro a vinho. Aquele cheiro entranhado nas paredes e no chão, de anos e anos de várias camadas de vinho caído, despejado, vomitado. Chão lavado, mas nunca desinfectado. Aquele cheiro que não sai mais. Já para não pensar nas garrafas perdidas. No dinheiro gasto em algumas garrafas caras. Que já não ia beber.
Que merda!
Levantei-me, nu, sem acender as luzes e fui descalço até à cozinha ver a desgraça. Fiz o corredor sombrio e que conheço de cor. Quando virei para a cozinha vislumbrei uma sombra que tentava sair para o corredor à procura da porta de saída.
Tive uma reacção rápida. Despachei-lhe dois murros bem assentes no que deveria ser a cara. A sombra caiu para o chão e eu chutei-lhe um pontapé nas ventas. Ouvi algo a partir. Um grito de dor. E um corpo a cair, pesado, no chão da cozinha. Em cima dos cacos de vidro das garrafas partidas. Ouvi o vinho a mover-se debaixo do corpo tombado.
Estiquei a mão e liguei o interruptor na parede da cozinha.
Aos meus pé, o corpo de um homem. O chão cheio de vinho e de pedaços de vidro. Sim, as prateleiras do vinho tinham tombado. Ao fundo da cozinha, a janela estava aberta. A janela por onde ele entrou mas por onde não podia sair.
Eu estava furioso.
Eu estava furioso com a invasão do meu espaço. Eu sentia-me protegido em casa. Eu andava nu. Descalço. Às escuras. Porque era eu, sozinho, na minha intimidade. No meu mundo. E o meu mundo tinha sido violado.
O tipo estava caído aos meus pés. E eu estava indeciso se continuava a bater-lhe ou se chamava a polícia.
Também podia larga-lo pela janela da cozinha abaixo.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/02]

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