Queria Ir-me Embora

Estou a olhar para o tecto. Não consigo fazer mais nada. Não consigo virar-me. Não consigo mover-me. Ainda consigo mexer um pouco os dedos, agarrar algo, mas perco rapidamente a força. Tudo se esvai.
Estou a olhar para o tecto porque é para onde estou virado. Estou deitado, de barriga para cima, nesta cama de hospital. E olho para o tecto branco, puro, limpo, e não vejo uma mancha do tempo, nem humidade, nem uma cagadela de mosca.
Estou a olhar para o tecto e estou farto. Estou saturado.
Estou saturado de estar aqui, assim. Sem poder mexer-me. Sem poder falar. Só me saem grunhidos. As pessoas julgam que estou irritado e agressivo, porque lhes grito grunhidos, mas não é verdade, é a minha frustração por não conseguir articular uma palavra e dizer-lhes Deixem-me partir!
Estou há uma semana aqui, neste quarto, nesta zona sossegada do hospital, onde tentam prolongar-me a vida. Mas eu não quero que me prolonguem esta vida. Vida! Que vida julgam que é? Isto não é vida. E quem disser que é não está a ser honesto. Há gente aqui para tratar de mim. Não posso ir sossegado à casa-de-banho, porque já não consigo. Ontem mijei-me todo. Já não me controlo. Não há vida nesta cama. A vida, como a conheci, terminou.
Estou cheio de dores. Tenho metástases por todo o corpo. Sei que não me espera nenhum milagre. Porque não acredito em milagres. Não sou religioso. Mas gostava de ser. Gostava de acreditar em tudo o que me contaram ao longo da vida. Não consigo.
Queria ir-me embora. Parar com estas dores e com as visitas destas senhoras, muito simpáticas, mas que me deixam com uma neura do tamanho do Domingo. Falam muito, falam demasiado, com as suas vozinhas irritantemente suaves e fininhas. Não quero que me venham falar de Deus, de Allah nem de Buda. Não acredito na vida depois da morte. Não acredito em nada e não quero acreditar nas fantasias que vocês me querem enfiar na cabeça.
Só queria um pouco de dignidade. Poder partir em paz com o mundo e comigo.
Não quero saber da minha mulher, dos meus filhos, do cão ou do Benfica. Só quero que eles fiquem bem. Que não se preocupem comigo. Que vivam as suas vidas em pleno até ao fim. Só quero que vivam as suas vidas da mesma forma que queria que me deixassem viver a minha. Mesmo que a minha escolha seja a morte. Fugir a estas dores insuportáveis. E não obrigar ninguém a ter de as partilhar comigo. Não quero viver a vida através de terceiros.
Se eu partir, parto em paz. E vocês ficam em paz. E a memória com que vão ficar de mim é de alguém que vos amou, vos ama, e que partiu em paz.
Estou a olhar para o tecto. Ouço a voz da enfermeira a dizer-me que amanhã é outro dia. Mas eu já não quero ver esse dia. Já não consigo ler, ouvir, falar, cantar, correr, comer, beber, amar…
Vivi a minha vida da maneira que vivi. Da maneira que pude viver. Que consegui viver. E amei cada pedaço dessa vida. Mas terminou. Não me obriguem a odiá-la, a ela e a vocês.
Sabem como é que me sinto? Fazem ideia de como me sinto? Querem saber mesmo como é que me sinto?
Eu quero poder ser eu até ao fim dos meus dias. Só isso.

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