O Happening

E depois da subida aos céus de uma festa, a descida aos infernos de uma ressaca.
Não falo por mim que não sou adepto de festas. Não faço comemorações, não assisto a efemérides, não festejo vitórias. Não me aproximo de grupos de gente em apoteose. Refugio-me na pacatez da casa e, se as coisas começam a descambar, se a minha rua se torna a rua deles, da turba, enfio-me na cama, tomo um zolpidem e vou directo para o dia seguinte.
Mas não me interpretem mal. Também bebo e, geralmente, de mais. Também ressaco. Mas ressaco sozinho. Vomito sozinho.
Estava na varanda a fumar um cigarro e a largar os borrões de cinza e vê-los serem levados pelo vento até tombarem na cabeça de alguém, quando olhei para a varanda do prédio em frente e vejo um tipo, nu, a vomitar para a rua.
Havia uma festa lá em casa. Eu fui vendo, assim discretamente, como quem não quer saber de nada, as miúdas a despirem-se, o pó a ser espalhado por cima da mesa de vidro, o álcool a despejar-se à velocidade da luz, as danças, as intimidades, os excessos.
Ainda fechei as janelas e as persianas de casa. Mas a curiosidade falou mais alto. Não gosto de pessoas mas gosto de espreitar pelo buraco da fechadura das pessoas. E fui olhando pelos buracos das persianas.
Aquilo era um happening.
A determinada altura acho que começaram a jogar ao quarto escuro, mas em toda a casa e com as janelas abertas.
Para ver melhor, fui para a varanda fumar um cigarro e largar borrões de cinza sobre as pessoas lá em baixo na rua. E foi aí que aconteceu. Alguém foi nu para a varanda vomitar para a rua.
Lá de baixo, da rua, chegou o barulho de alguém que não gostou da chuva que lhe caiu em cima.
Não demorou muito a ouvir-se a sirene da polícia. Lá em frente ninguém ligou nenhuma. A música estava alto. O tipo que tinha vomitado já tinha voltado para dentro de casa. A brincadeira continuava.
Fui à cozinha buscar um copo de vinho tinto. Acendi novo cigarro e sentei-me na varanda a apreciar.
O carro da polícia parou lá em baixo. Senti-os sair do carro, entrar no prédio e tocar à campainha da casa. Ninguém ouviu a campainha.
Estou curioso para ver o que é que se vai passar. Espero que alguém acenda a luz.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/27]

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