Estação Terminal

Precisava de partir. Precisava de ir embora. Sair. Precisava de respirar ar fresco.
Desci à cidade para apanhar uma camioneta que me levasse para qualquer lado longe dali.
Entrei na Estação Terminal e descobri-me noutra dimensão.
O espaço era escuro. A luz do dia não conseguia furar a sujidade acumulada de anos nos vidros das portas da rua. Para nos conseguirmos ver uns aos outros, estavam acesas umas luzes fluorescentes brancas penduradas no tecto. Mal entrei senti o barulho das lâmpadas. Um som constante, fininho, mas agressivo, que parecia escavar os ouvidos até chegar ao cérebro. Não era um som muito alto mas era persistente.
Coloquei-me numa fila que andava devagar por um caminho imaginário criado por fitas extensivas que aumentava ou diminuía o caminho consoante estava, ou não, muita gente para a bilheteira. A mim parecia-me muita gente num caminho enorme numa fila que se movia em câmara lenta.
Chegado ao guichet, fui avisado que o terminal de Multibanco não estava a funcionar. Tive de sair da fila, voltar às ruas da cidade e procurar uma caixa Multibanco em funcionamento. Perdi vários horários, mas como não tinha destino, não achei grave.
Lá encontrei uma caixa em funcionamento, levantei dinheiro, voltei ao espaço lúgubre da Estação Terminal e voltei a aguardar a minha vez num falso corredor feito com fitas extensivas, atrás de um grupo de gente que se movia muito lentamente.
De novo no guichet pedi um bilhete para a próxima camioneta a sair da cidade e para o destino mais longínquo dessa mesma camioneta. Queria o destino final.
E assim aconteceu.
Antes de entrar na camioneta fui urinar, mas não consegui entrar na casa-de-banho. O cheiro barrou-me a passagem. Tentei olhar lá para dentro mas uma luz intermitente, não me deixava ver. Desisti de urinar e mentalizei-me para aguentar até a camioneta parar numa Estação de Serviço a meio da viagem.
Fui beber um café e comer um Bolo de Arroz mas, mal coloquei o pé no pequeno bar de apoio à Estação Terminal, senti a sapatilha a esmagar qualquer coisa que deixou pendurada uma massa viscosa e colorida que me provocou vómitos.
Ponderei sair da Estação Terminal e deixar-me ficar na cidade. Mas a necessidade de partir era enorme.
Acabei sentado a um canto da garagem, a olhar para os televisores de informação desligados, de mão na boca para tentar impedir-me de respirar os gazes tóxicos que fluíam pela garagem, e a olhar as camionetas que chegavam para ver se alguma delas era a minha.

Estou aqui há três horas. Já chegaram e partiram várias camionetas e ainda não vi a minha que era suposto ser a primeira. Mas não consigo levantar-me para ir saber o que se passa. Está uma barata ali ao fundo, a olhar para mim, há já duas horas, pelo menos. Tenho medo.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/24]

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