Estou Nu

Era tarde. Fui dormir. Deitei-me na minha cama. Estava em casa. Num apartamento na cidade.
Quando acordei, descobri-me numa cama que não conhecia. Numa casa no campo.
Acordei. Abri os olhos e vi. Vi onde não estava. Não reconheci o sítio. Levantei-me. Estava nu. Abri a janela e fui inundado pelo cheiro a terra molhada. Tinha estado a chover. Lá fora era o verde. O verde molhado. Ao fundo, no horizonte, as montanhas.
Saí do quarto e fui corredor fora até chegar a uma cozinha grande. Senti o cheiro a café acabado de fazer. Peguei numa chávena e enchi-a. Vi, na mesa da cozinha, um maço de cigarros e um isqueiro por cima. Acendi um cigarro. Abri a porta da rua e descobri um alpendre.
Saí de casa.
Aproximei-me do parapeito da varanda do alpendre. Fui bebendo pequenos goles de café. Não tinha açúcar. Não o vi à frente dos olhos e achei por bem não me pôr a meter o nariz em casa alheia. Fumei o cigarro e lancei a beata fora. E então reparei numa miúda que estava parada, lá fora, a olhar para mim.
Olhámos um para o outro e ela disse Estás nu. E eu percebi que estava realmente despido. Fiquei envergonhado e entrei em casa. Larguei a chávena de café na mesa da cozinha e refiz o corredor em sentido contrário de volta ao quarto.
Entrei no quarto e enfiei-me outra vez na cama. Puxei o edredão para cima da cabeça e deixei-me envolver por ele.
Mas não consegui adormecer.
Dei voltas.
E mais voltas.
Ergui-me. Sentei-me na cama. E descobri-me numa cama de hospital.
De um lado, uma cama vazia. Do outro, também.
Tirei as pernas para fora, para sair da cama, e percebi que estava nu. Voltei a entrar na cama. Deitei-me e tapei-me com o lençol. Deixei a cabeça de fora. Para ver. Perceber.
Apareceu uma enfermeira. Mediu-me a temperatura. Confirmou se o soro estava a correr normalmente.
Perguntei-lhe O que é que me aconteceu?
Ela disse-me Desmaiou.
Onde?, insisti.
Mas a enfermeira já tinha saído.
Olhei pela janela, para a rua e vi que estava a chover. Ao fundo, no horizonte, via umas montanhas.
Apetecia-me uma chávena de café acabado de fazer. E um cigarro.

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