Demasiado Real para Ser Verdade

Onde acaba a realidade e começa a ficção?
Saí de casa para ir beber um café expresso depois de jantar. Comi uma refeição ligeira. Uns brócolos com um bocado de queijo parmesão por cima. Acompanhei com um resto, um fundo de garrafa, de uma Adega Cooperativa de Portalegre tinto. Mas ficou a apetecer-me um café.
Então saí.
Passei pelo quiosque dos jornais e dei-lhes uma olhadela. Era uma segunda edição. O conjunto de notícias importantes a isso obrigou. Não podia esperar até amanhã de manhã.
E vi. Li. Mais de cinquenta palestinianos mortos por soldados israelitas enquanto se manifestavam contra a abertura da embaixada norte-americana em Jerusalém e o reconhecimento desta como capital de Israel. Ao lado, numa caixa, outra notícia lembrava que o presidente norte-americano tinha sido proposto para o prémio Nobel da Paz.
Levei a mão direita à cabeça e cocei-a. E pensei Que porra é esta? Não tenho caspa! E esta notícia de primeira página? É verdadeira ou falsa? É realidade ou ficção? Não consigo entender!
E vi. Li. Mais abaixo continuei com as notícias e encontrei outra, esta nacional, que dizia que Jorge Jesus, treinador de futebol do Sporting Clube de Portugal, tinha sido suspenso pelo presidente do Clube, Bruno de Carvalho. Em consequência disso alguns jogadores já tinham anunciado recusar-se a jogar a final da Taça de Portugal. Desatei a rir estupidamente. Algumas pessoas que lá estavam no quiosque olharam para mim. Comecei a tossir de tanto rir. Depois veio a falta de ar. Levei a mão ao bolso das calças e agarrei no Ventilan e mandei duas bombadas. Não percebia a notícia. Na semana que antecede um jogo que pode dar mais um título ao futebol do clube, o presidente suspende o treinador?
E vi. Li. Ao fundo da página uma chamada de atenção para uma notícia a desenvolver no interior do jornal. Isaltino Morais queria transformar Paço d’Arcos em Saint-Tropez. Hum…? Achei não ter percebido o título. Algo deveria estar errado. Achei eu. Se calhar não.
Já não vi. Nem li mais.
Já não sabia onde estava. Estaria realmente no quiosque? Ou estaria noutro lado a pensar, a sonhar com isto tudo? Era demasiado irreal para ser verdade. Pensei que estaria a dormir e a sonhar. Pensei que estaria no sonho de outra pessoa, mas não sabia dizer porquê. Pensei que estava frente ao computador a escrever um texto de ficção para o deleite literário de uns quantos, poucos, fiéis leitores que acompanhavam as minhas divagações diárias numa rede social.
Comecei a ouvir uma música. Uma música de que gosto. E a música começou a aumentar de volume sonoro. Olhei à volta para ver se descobria de onde vinha a música.
Acordei numa cadeira, na minha varanda, com o telemóvel a tocar. Agarrei nele, olhei para o ecrã e desliguei-o.
Ao meu lado tinha um copo com um pouco de vinho tinto. Não sei se era afinal o resto da Adega Cooperativa de Portalegre ou outra coisa qualquer, mas virei-o e bebi-o todo de um só gole. E soube-me bem. Ou acho que me soube.
Esperava estar acordado.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/14]

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