Sofro de Velhice

Parece que voltou o frio.
Sinto os ossos gelados dentro de mim. Tento aquecer. Visto uma camisola de lã mais grossa. Visto mais um casaco. Sopro para as palmas das mãos em concha. Bebo um chá quente. Depois um ponche. Fumo um cigarro. Nada dá resultado.
Tenho de passar junto ao rio e sinto o frio aumentar. Estou prestes a partir-me em mil pedaços de gelo quando vejo os patos cruzarem-se comigo, vindos da zona dos aparelhos de manutenção exteriores e lançarem-se às águas geladas do rio cheios de animação.
A mesma animação que levam os adolescentes que passam por mim. De t-shirt. Casacos enrolados à cintura. Calças curtas e descubro que não usam meias.
Estou doente.
Estou velho.
Sigo o caminho sem grande esperança em mudar as coisas. Agora começo a compreender os meus avós e os meus pais. Agora compreendo o desespero quando não percebia que estava frio. Que a Primavera era só uma data no calendário da oficina do senhor Júlio. Que aos possíveis dias tépidos sucederiam noites de geada.
Não sinto os pés dentro das sapatilhas. Não sinto as mãos dentro dos bolsos das calças tentando apanhar algum do calor que o meu corpo deveria produzir. Sinto a ponta do nariz, mas pelo frio que ostenta. Acho que está vermelho de frio. Pelo menos é o que me parece visto daqui de trás, dos meus olhos entortados para conseguir ver a frente da minha cara.
Ia para qualquer lado mas já não sei para onde. O frio desnorteou-me. Páro junto ao rio. Olho à volta. Quero andar e não sei para onde me dirigir. Para onde é que ia? Mas não posso estar parado. Começo a mexer os pés sem sair do mesmo sítio. Tento pensar. Tento organizar as ideias. Tento esquecer-me, um pouco, do frio que me assola.
Ouço o som da feira.
Da Feira de Maio.
Vem lá chuva, de certeza.
Tomo uma decisão e volto para casa. Refaço todo o caminho ao contrário. Sonho com a minha cama. Com a minha cama quentinha. Com o edredão sobre mim. E o silêncio lá de baixo.
Nem as farturas do Penim me fazem mudar de destino. O frio é muito poderoso. Chegados a determinada idade, o frio é terrível.
Ou então fui eu que amoleci.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/02]

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