Nas Migalhas do Cheque da Segurança Social

A ironia das ironias é que estamos em véspera de Dia do Trabalhador e tanto eu como ela estamos os dois sem trabalho. Ela porque está desempregada. Eu porque estou sem trabalho. A diferença é que ela recebe o cheque da Segurança Social. Eu não.
Vivemos os dois do cheque dela. Que está a chegar ao fim. Há muito que já só estamos nas migalhas do cheque, mas tem de durar até vir o próximo porque, como as coisas se apresentam, não parece vir aí trabalho.
Estamos sentados na mesa da cozinha. Mais enterrados nas cadeiras que sentados. Eu, então, estou sentado com o cóccix. Estamos a acabar com o pacote de Capataz tinto. À nossa frente uma lata de tabaco de enrolar. Umas mortalhas. Filtros. E ponho-me a pensar que nunca teria imaginado resumir a minha vida àquela mesa, naquela cozinha, a beber aquele vinho e a fumar tabaco de enrolar.
Estamos os dois em silêncio. Não que não tenhamos nada para dizer, que temos. Somos ambos pessoas inteligentes, cultas e acompanhamos os noticiários do país e do mundo. Temos opinião. E gostamos de nos ouvir, um ao outro. Mas estamos ambos cansados de nos queixarmos. Porque todas as conversas que temos tido ultimamente terminam assim, na queixa. Na dor da queixa.
Não nos queixamos de ninguém, nem de nada em concreto. Só das nossas vidas merdosas e da incapacidade que demonstramos em dar-lhes a volta. Não somos pessoas espertas. Não temos aquele espírito do comerciante, do vendedor, do agente de seguros. Não! Até somos bastante tímidos, os dois.
Admiramo-nos, sim, é com a capacidade que ainda temos de nos conseguirmos amar naquele contexto.
Acho que o silêncio ajuda. É um silêncio cúmplice. E concordante.
Temos partilhado tudo. As dores e as poucas alegrias. E o cheque dela.
Continuamos a fazer sexo regularmente. Tomamos banho. Vestimo-nos. Saímos à rua. Passeamos pela cidade. Olhamos as montras.
Há dias em que até bebemos um café com algum amigo daqueles que ainda ficaram.
Sim, porque esta vida não é para qualquer um. É preciso saber resistir. Olhar o abismo e não saltar. Tivemos sorte, um com o outro.
Ficámos outra vez sem internet, diz ela lá do seu lado da mesa. E eu sei que tenho de ir roubar outra, algures.
Mandamos os dois o fumo para o mesmo sítio e forma-se, debaixo do candeeiro da cozinha, uma nuvem escura, daquelas que prometem muita chuva. E desatamos os dois a rir, feitos estúpidos.
E depois digo-lhe Já vou arranjar net para nós.
Acabo o copo de vinho tinto. Apago a beata no cinzeiro e levanto-me. E digo-lhe Não quero que te falte nada.
Passo por ela, baixo-me um pouco e beijo-a, levemente, nos lábios.
Ah, e amanhã é Dia do Trabalhador, digo-lhe baixinho, ao ouvido. Ela sorri, abana a cabeça e diz Faz impressão, isso.
E eu vou à procura de internet à vizinhança.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/30]

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