Já Vejo a Minha Pila

Eu olho para baixo, assim do alto do meu metro e noventa, e já vejo a pila.
A barriga encolheu tanto que desobstruiu a vista.
Agora até consigo cortar as unha dos pés sozinho. Baixo-me e não tenho nada entre mim e os meus pés. Vejo tudo bem. Chego lá muito bem. Nem me canso. E consigo dobrar-me.
Deixei de beber cerveja. Quero dizer, muita cerveja. Ainda bebo, mas já não bebo muita como bebia. Compenso com o vinho, que não enche tanto.
Passei, também, a dar algumas passeatas a pé. Quando preciso de ir a qualquer lado, coisa que evito ao máximo – eu não gosto de sair de casa -, vou, sempre que possível, a pé. E sabe-me bastante bem andar a pé. A única chatice é cruzar-me com pessoas, pessoas que me conhecem, e que esperam um cumprimento, uma pequena conversa, e eu, tento sempre fugir a esses contactos mais imediatos.
Também tenho cortado lenha. Com um machado. Sim, sei que não é altura para isso, que já está calor, que já não utilizo a lareira, mas fica já para o próximo Inverno. E vou cortando lenha para os vizinhos. Mais uma forma de arranjar algum dinheiro e manter a forma.
Também já não como desalmadamente como comia dantes. Já não acredito no fim do mundo, por isso não tenho de comer até ficar cheio, cá por cima, a abarrotar. Agora como o suficiente para me sentir bem.
Também deixei de ler livros. Já não estou tanto tempo sentado no sofá a ler. Agora ouço podcasts. Enquanto caminho ou faço as coisas que tenho de fazer, ouço podcasts. Deixei de ser tão sedentário.
Podia dizer que também tinha parado de fumar. Mas estaria a mentir. É a única coisa que mantenho. Gosto de fumar. Gosto do cheiro do tabaco a ser fumado (não gosto nada do cheiro frio do tabaco que fica nos cinzeiros das noites anteriores). Gosto do cigarro aceso entre os dedos das mãos. E ver o fumo a subir dos dedos até ao tecto. Enquanto olho pela janela a vida a correr lá fora. Enquanto escrevo palavras como estas no computador. Enquanto penso em coisas estúpidas como já ver a minha pila.
E estou contente. Não tanto por ter emagrecido. Por ter perdido a barriga que tinha. Por estar mais elegante. Estou contente porque já vejo a minha pila de novo, passados tantos anos.
E só por causa disso, apetecia-me beber uma cerveja. Mas vou contentar-me com um Borba Reserva que me sobrou do almoço. Um vinho tinto cai sempre bem na alegria dos dias.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/01]

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