O Peixe ao Sal

Era Domingo e deixei-me ficar na cama até mais tarde. Deixaram-me. Afinal, não estava em minha casa.
Pouco barulho. Nada de telemóveis, televisões, música alta, nada.
Descansei.
Até que fui acordado com um barulho ensurdecedor. Um barulho monocórdico. Monótono. Repetitivo. Alto. Era um bum, bum, bum, ritmado. Parecia que a casa vinha abaixo.
Levantei-me ensonado, mas rápido, nu, e fui pela casa à procura de tal barulho infernal.
Cheguei até à cozinha.
Ela estava de volta da máquina de lavar-roupa que não parava de repetir os barulhos. A máquina parecia possessa e batia contra a parede. Ela estava a mexer em todos os botões, mas nenhum resultava. Percebi que estava a ficar assustada. Quando lhe toquei, por trás, para a afastar da frente e tratar do assunto, ela deu um salto, como se não se lembrasse que eu estava ali. Ou então foi só apanhada de surpresa no meio da sua concentração para desligar a máquina. Também pode ter sido por eu aparecer ali assim, nu, mandão, feito herói.
Chegou-se para o lado e eu deitei a mão à ficha e puxei-a da tomada. A máquina parou de trabalhar. O barulho cessou. O silêncio invadiu a casa. Olhámos um para o outro. Ela disse Não sei que raio aconteceu. E eu disse Não percebo nada de máquinas para além de desligá-las. Tens de mandar vir alguém para a arranjar.
Vi a desilusão momentânea na cara dela. Depois disse-me Vai tomar banho que o almoço está quase pronto. E eu fui. Ainda me virei para trás, antes de sair da cozinha, e vi-a a abrir a máquina para tirar a roupa lá de dentro e a água que ainda lá estava sair para fora da máquina e invadir a cozinha. Deixei sair um Foda-se! baixinho, mas voltei atrás e ajudei-a a apanhar a água com uma esfregona, enquanto ela tirava a roupa da máquina, a espremia para uma bacia e a pendurava no estendal da janela da cozinha. E fui tomar banho.
Quando voltei, de banho tomado, a mesa estava posta. Ela tinha feito um peixe ao sal no forno. Tinha aberto uma garrafa de vinho branco. A roupa já estava toda estendida e ela tinha posto um vestido.
Eu peguei na garrafa, verti o vinho nos dois copos e fui oferecer-lhe um. Demos um pequeno toque com os copos, um no outro, e dissemos ambos Tchim-tchim. E bebemos um pequeno gole.
E depois ela disse Vamos com calma. É para irmos com calma.
Eu fiz um pequeno e quase imperceptível sorriso e acenei com a cabeça a concordar.
Sentámo-nos à mesa e ela serviu-nos o peixe. Havia lá em cima da mesa uma salada de tomate para acompanhar.
O peixe estava muito bom. Aquele fora um bom almoço. Nós fomos com calma. Com muita calma. Mas as coisas não deram em nada. Acabámos por nos chatear, como nos tínhamos chateado de todas as outras vezes.
Mas não consigo esquecer aquele peixe ao sal. Estava mesmo muito bom.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/29]

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