Esqueletos do que Tinham Sido

Os primeiros que vi foi no início dos anos ’90. É possível que já houvesse outros naquelas condições, até porque havia quem vivesse em sítios piores mas, assim, daquela forma, foi a primeira vez. Mais tarde voltei a ver outros. Ainda em pior situação. Porque esses que vi mais tarde viviam em carros que eram já só carcaça. Esqueletos do que tinham sido. Sem vidros nem pneus. Estes primeiros que vi, viviam ainda num carro inteiro, velho mas funcional porque, pelo que me foi dado perceber, ainda andava ou pelo menos, movia-se (talvez de empurrão, não sei!).
Vi-os da primeira vez em que tive um trabalho naquela zona. Era junto ao rio, num sítio relativamente sossegado, mas não escondido. Gelado durante a noite. Escaldante durante o dia. Andei lá durante duas semanas. E vi-os todos os dias durante essas duas semanas.
No início aquilo ainda me incomodava. Aliás, nos dois primeiros dias fiquei mesmo angustiado. Depois fui habituando-me à ideia orwelliana que somos todos iguais, mas há alguns mais iguais que outros.
A primeira vez que lá cheguei, ainda de noite mas já com o dia a querer romper a escuridão, vi que o carro estava lá parado e que, provavelmente, estava alguém a dormir lá dentro. O pára-brisas e o vidro traseiro estavam tapados com aquelas protecções contra o sol, com uma publicidade já não lembro a quê. Os vidros laterais tinham toalhas presas nas janelas, entaladas em cima, pelos vidros fechados.
Talvez acordados com o barulho da nossa chegada, minha e dos meus companheiros de trabalho, saíram, primeiro ele, depois ela, cada um do deu lado do carro, e foram urinar a uma esquina. À mesma esquina. Primeiro ele. Depois ela.
O que me fez mais impressão, foi que, depois de ambos voltarem a entrar para o carro, abriu-se uma das portas de trás e de lá saíram duas crianças pequenas e foram, também elas, urinar à mesma esquina.
As crianças já não voltaram a entrar no carro. Estavam todos vestidos, com a roupa suja e amarrotada, de chinelos, mas vestidos.
A mulher voltou a sair do carro e foi ao porta-bagagens. Abriu-o e apanhou duas carcaças duras que rasgou com as mãos. Depois pegou num pacote de açúcar e dividiu-o pelas duas carcaças e deu uma a cada criança.
As crianças foram andando por ali, à nossa volta, durante o resto do dia. Alguns de nós ainda lhes demos coisas para comer e beber, uns chocolates, uns pacotes de sumo, uma maçã. E as crianças iam comendo algumas daquelas coisas, outras iam entregar à mulher. Mas nunca pediram nada a ninguém. Nem nunca vimos a mulher e o homem a comer o que quer que fosse.
Durante as duas semanas que lá estivemos, vimos as crianças e a mulher por lá, diariamente. Durante aquele período, as crianças nunca foram à escola. A mulher ia tratando delas assim, como podia. Ainda a vi a dar-lhes alguns banhos com água fria de uma garrafa de plástico. O homem houve alguns dias em que não o vimos, ou vimos chegar ao fim da tarde, ou partir de manhãzinha, quase ao mesmo tempo da nossa chegada. Durante este tempo todo, o carro mudou três vezes de sítio. E porque nós pedimos. Por nossa conveniência. Pedíamos de véspera e, no dia seguinte, o carro já estava noutro lado.
Nunca mais voltei aquele sítio. Nunca mais vi aquele carro, nem aquelas pessoas.
Mais tarde voltei a ver mais gente a viver dentro dos carros. Até em carcaças de automóveis, dentro de caixotes de cartão e até debaixo do céu, fosse estrelado ou enublado.
Ainda hoje penso neles. Ainda hoje me dói. E às vezes, só às vezes, penso se não serei eu um deles.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/26]

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