O Livro Perdeu a Magia

Peguei num livro. No primeiro que apanhei. Estava caído sobre o sofá. Era o livro que andava a ler. Há não sei quanto tempo. Andava a lê-lo tão devagar que todas as vezes que pegava nele tinha de recomeçar num capítulo anterior.
Peguei nele mas nem o vi. Nem lhe olhei para a capa. Nem sei quem era o autor. Sei que era o livro que andava a ler porque estava caído por ali. Mas não sabia mais nada. Não conseguia saber mais nada. Não queria saber mais nada. Estava farto dos livros. Farto daquela relação num só sentido. Eu abria-o e fazia correr o meu olhar sobre as suas linhas cheias de letras e tentava perceber-lhes os sentidos. Ele só se limitava a estar por ali.
Deixei-o cair no chão, mas nem me apercebi. Só quando ouvi o barulho que fez quando caiu é que me apercebi que o tinha deixado cair. Caiu com as esquinas da parte de cima e dobrou as folhas e a capa. Olhei para ele e pensei em endireitar a capa. Em endireitar as folhas. Mas não fui capaz de me baixar para o apanhar.
Estava a olhar para o livro mas não o estava a ver. Via as folhas amachucadas mas não via o livro. Não lhe via a estória. Não lhe cheirava a tinta nem a cola. Olhava para ele e não via nada porque o livro não me dizia nada. Não era aquele livro em especial, era o livro em geral. O papel. Aquele envelhecimento das folhas. Aquele amarelo que ia tomando conta de tudo. A humidade e o enfolamento. As folhas dobradas. As capas rasgadas. O envelhecimento. A morte.
Tinha perdido a magia.
Com tantos e tantos títulos a saírem diariamente, é difícil acertar num que valha mesmo a pena, que me diga alguma coisa, que me fascine, que me agarre e, depois, que esteja disseminado por aí e me faça encontrar alguém que também o tenha lido e com quem possa trocar impressões, discutir ideias, análises, com quem possa falar sobre o mesmo assunto. Nem que seja para dizer mal.
Peguei num cigarro e acendi-o. Enquanto ia fumando, ia olhando para o livro caído com as folhas dobradas nas pontas. Estiquei o braço e, com a ponta do cigarro aceso comecei a queimar as pontas dobradas do livro. E soprava o lume. E via-o a progredir. O amarelo do fogo a ficar mais amarelo, um amarelo brilhante, luxuriante. Começava pelas pontas dobradas mas ia além disso e começava a queimar o resto das folhas do livro e depois o livro inteiro e depois ainda tive de pegar nele, com cuidado, e ir colocá-lo no lava-louças para o deixar queimar-se sem destruir o tapete e incendiar a casa.
Não que me importasse a casa ou o tapete ou o que quer que fosse. Só não queria era chatices com os bombeiros, a polícia e o senhorio.
Já a cinza do cigarro caía abundantemente sobre o sofá e o tapete e abria pequenos buracos negros que não me causavam a menor das preocupações.
Liguei a televisão. Estava a transmitir um jogo de futebol. Acho que do Futebol Clube do Porto. Não sei o resultado.

Só queria ver as imagens e ouvir um bocado de barulho.
Só queria um bocado de companhia.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/23]

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