A Varanda da Minha Vida Tombou

Olhei para trás e não vi nada. Ou vi. Vi a parede sem estuque a desfazer-se aos pouco, restos de humidade e colecção de várias camadas de tinta diferentes que foram camuflando a espécie de vida que tentava viver ali, naquele buraco fétido que se tinha tornado na minha casa. E não percebi. Mas acabei por perceber.
Foi a varanda.
Acabei por olhar para a frente à procura do passado e o que vi foi a varanda.
E foi aí que percebi.
Foi por causa da varanda que nunca saí daquela casa.
Sofri com os assaltos na zona, com a falta de água e luz nos meses mais doridos, com as festas idiotas dos estudantes que se revezavam pelos apartamentos alugados ao quarto ou ainda com o cheiro que precede a morte dos inquilinos mais antigos.
Sobrevivi a tudo isto ali, por causa daquela varanda.
Era a varanda da minha vida. A varanda onde ia fumar os meus cigarros, secava ou arejava a roupa, largava todas as coisas que não me cabiam no apartamento exíguo, cultivava os coentros, a salsa e a hortelã que usava nos meus cozinhados, levava as raparigas a ver a noite na cidade, de onde entrava na vida calhandrada dos meus vizinhos da frente ou de onde mandava bolas de saliva sobre os passantes, fugindo a esconder-me na cozinha enquanto lá de baixo mandavam vir com a falta de educação e respeito.
Foi naquela varanda que me fartei de matar os pombos que me vinham cagar a roupa estendida e onde tentei parar a entrada de baratas em casa (mas as gajas vinham sempre de outro lado qualquer).
E foi com a queda daquela varanda que me perguntei Que porra faço eu aqui?
Foi um dia normal. Ou melhor, uma noite normal. Tinha acabado de ir fumar um cigarro à varanda, largado a beata na rua, e estava a sentar-me no sofá para olhar para a televisão quando ouvi o estrondo de um tombo no fundo da rua. Não matou ninguém. Não estragou nenhum carro. Acabou por esburacar um pouco do passeio e sujar a esplanada que ficava lá ao lado.
Mas a mim, a mim matou-me a vida.
Que ficaria ali a fazer, naquela casa, sem aquela varanda?
Onde iria secar a roupa? Namorar? Arrumar os caixotes de cerveja? Olhar as vidas bem mais interessantes que a minha dos meus vizinhos da frente?
Mais importante ainda, onde raio é que iria fumar os meus cigarros e pensar na vida?
E foi ao olhar para trás, para a falta de estuque e restos de humidade que decidi Vou embora daqui e quero que se foda!

[escrito directamente no facebook em 2018/04/21]

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