O Chão de Tijoleira, Talvez pela Última Vez

Agarrei-lhe os cabelos e puxei-lhe a cabeça para trás. Mas não como quando a beijo. Não havia ali nada de beijos, nem de desejo. Não havia ali nada de sexual. Estava furioso com ela. Havia fúria naquela mão. Havia fúria na força que exercia sobre os cabelos que ela tinha pintado de loiro mas cujas raízes escuras já começavam a ser muito evidentes.
Ela não se ficou.
Fechou a mão, com força, e com o punho mandou-me um murro no sexo.
Larguei-lhe os cabelos. E dobrei-me de dor.
Acertara-me em cheio nos testículos. Parecia que iam rebentar.
Acabámos por cair os dois no chão. Ela viu como eu fiquei e ficou preocupada. Gatinhou até mim. Agarrou-me a cara com as duas mãos e disse Desculpa! Desculpa! Mas a culpa foi tua.
A porra da culpa era sempre minha.
Claro que a culpa era sempre minha porque era sempre eu que pagava os copos.
E agora?
Era isso que lhe estava a dizer enquanto lhe puxava os cabelos loiros mal pintados no pequeno salão caseiro da vizinha do primeiro direito. E agora? E agora como é que íamos pagar a renda da casa?
Ontem deixou-me um bilhete preso no frigorífico. A única coisa que o frigorífico comportava para além de uma garrafa de água do Continente por metade: Estou no Bar. Vem cá ter.
E eu, parvo, fui.
Eram oito horas da noite.
Ela já lá estava desde as quatro da tarde. Vá lá, reconheceu-me. Principalmente porque estava à minha espera para pagar a despesa do que já consumira.
Acabámos por ficar lá até às três da manhã. O Bar fechou às duas mas continuámos por lá até nos porem na rua.
Hoje de manhã é que percebi o que tinha acontecido.
Aconteceu o que já tem acontecido bastantes vezes nos últimos tempos.
O pouco dinheiro que me restava no bolso das calças já não chegava para pagar a merda da renda da casa.
E já é dia seis.
Temos… Temos?!… Tenho, eu, eu tenho dois dias para um milagre. Se não, rua.
Quando isto acontece cinco vezes num ano, não há senhorio que seja compreensivo.
E foi do que me voltei a lembrar enquanto ela me acariciava a cara, pedia desculpa mas dizia que a culpa era minha.
Voltei a agarrar-lhe aqueles cabelos louros mal-pintados e puxei-lhe a cabeça outra vez para trás. Mas desta vez olhei-a de outra maneira. E os olhos dela viram as coisas de outra forma. E ela deixou ir a cabeça para trás, deixou-a ser puxada pela minha mão enquanto libertava o pescoço, branco, suave, desejável. E mo ofereceu.
Estávamos os dois caídos no chão.
Eu aproximei-me dela e beijei-lhe o pescoço. Mordisquei-o. Mordi-o. Sangrei-o.
Quando demos por nós estávamos os dois nus a rebolar no chão de tijoleira da cozinha. E a pensar que podia ser o nosso último dia ali, numa casa, sem ver as estrelas, e com a voz da Júlia Pinheiro como pano de fundo.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/19]

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