O Carrossel em Andamento

Vivemos tempos difíceis.
Mais que difíceis, parvos.
Vivemos tempos parvos.
À minha frente, na fila de um hipermercado gigante de subúrbio, uma chinesa queixa-se não sei bem do quê nem de quem, mas que a culpa era dela ser chinesa porque se fosse portuguesa o problema nunca se poria. Seria um caso de racismo se por ventura ela tivesse pronunciado a palavra. A verdade é que a palavra nunca foi dita. Ao contrário do Foda-se! para aqui, e do Foda-se! para ali, dito com todos os preceitos de um falante de mandarim que falava, e percebia, na perfeição, a língua de Camões. Foda-se!
Passado o desabafo e sobrevivendo à Demo-Crácia chinesa que muito tem para ensinar ao mundo, descubro, no telemóvel, através do sempre prestável serviço noticioso do DN, a estória de um homem que se lançou do alto do terceiro andar do Centro Comercial Colombo directamente para o Hades através dos braços doces de Thanatos.
Tudo isto depois de ter passado a noite em branco à espera das resoluções twitais do Presidente Americano sobre mais uma guerra que muito vai encher os cofres de quem os tem já bastante cheios. Guerras e mais guerras mantêm o carrossel em funcionamento. O problema são os químicos. A sério? As armas químicas? Não a morte? As armas? A merda em que este mundo está atolado, não? O problema são mesmo as armas químicas? Como dizia a chinesa no seu perfeito português continental, Foda-se!
Pelos vistos, banqueiros e madeireiros há-os em todo o lado.
E nem vou falar nos suicídios motivados por toda esta mistura azeda de gente com falta de carácter. Irrita-me é que numa grande parte das escolas seja o que se está a ensinar. Por causa dos ratings (adoro estas palavras – gostaria de poder utilizar também por aqui o alavancar que é uma expressão de que gosto muito também).
E no meio disto tudo, desta merda toda, lembro-me do post do Rui Pedro Dâmaso sobre um dos melhores álbuns de sempre dos Sonic Youth e quase que faço as pazes com a vida. Voltei a ouvir o Washing Machine e é mesmo uma álbum do caralho, talvez um dos melhores de uma das minhas bandas preferidas.
Acabei, realmente, por fazer as pazes com a humanidade quando tive a oportunidade e a disponibilidade de ler o enorme texto do Rui Poças sobre as coisas boas da vida que se vão perdendo, que se vão deixando lá para trás e que tantas e tantas saudades nos trazem, como as velhinhas cassetes de plástico (as sonovox eram feitas na Marinha Grande), com mixtapes feitas com muito gosto e com faixas escolhidas a dedo, numa sequência única e pensada sobretudo para pessoa a quem, por ventura, se destinava.
Muito longe estávamos da competição desenfreada, má-educação e desespero que fundamentam os dias de hoje.
Não estou enterrado no passado, não sou um passadista, sou amante das novas tecnologias, mas continuo a achar que um Homem é um Homem.
E o toque, o colo, o carinho, o amor, uma festa, uma lágrima de gratidão fazem bem mais por este mundo que toda esta economia merdosa baseada na ultrapassagem pela direita aos valores, à paixão e à camaradagem.
Obrigado Rui Pedro Dâmaso e Rui Poças por ainda me fazerem acreditar.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/14]

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