E pela Primeira Vez Tive Medo

Foi num desses despertares que descobri o sangue espalhado pelo chão. Não era muito, o sangue. Mas era algum. Devia ter quebrado alguma coisa em mim quando caí. Quando caí vezes sem conta graças ao valium.
Tinha consciência de quando acordava amiúde entre os apagões que se sucediam. Mas no geral, não me lembrava de nada. Não sei o que sucedera. Não sei o que fizera. Não sei o que quisera fazer ao fazer o que fizera.
Até finalmente ouvir o telemóvel tocar e eu o perceber.
Comecei por levar um ralhete do outro lado. Afastei o telemóvel. Ouvia na perfeição o que me queriam dizer. Mas eu não queria ouvir. Ouvia na perfeição o que me estavam a perguntar. Mas eu não queria responder.
Tudo era muito grave.
Tudo era um incómodo.
Tudo era um problema demasiado grande para ser partilhado.
Não queria dizer onde estava. Não podia dizer onde estava. Não queria partilhar o que se tinha passado.
E, de repente, de repente olhei de viés para um vidro e vi-me.
E pela primeira vez tive um deslumbre do meu estado.
E pela primeira vez percebera de onde vinha aquele sangue.
E pela primeira vez tive medo.

[2018/04/04]

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