Bato à Porta

Estou a comer uma sopa de feijão seco. Ainda lá despejei umas azeitonas e uns bocados de broa.
Ela está em pé, à minha frente, apoiada nas costas da cadeira. Tem um ar cansado. Diz-me que não tem fome. Que não lhe apetece comer. Depois olha para a televisão ligada, com o som baixinho, onde passa o noticiário da noite e murmura Estou saturada.
Eu olho para ela e não digo nada.
Ela baixa o olhar e sai da cozinha, devagar, à medida das suas possibilidades.
Eu acabo de comer a sopa. Depois ainda como uma maçã. Lavo a louça. Deixo-a a escorrer no lava-louça.
Vou até à varanda e fumo um cigarro. Penso na saturação dela. Percebo-a. Mas não sei que lhe dizer.
Acabo de fumar e mando a beata fora.
Apetecia-me ter algo para lhe dizer. Algo de muito entusiasmante. E verdadeiro. Algo que a levasse a sorrir e a esquecer o que tinha dito. Mas não sei o que dizer. Não sei o que dizer nesta altura. Nesta situação.
Entro em casa e vou até ao quarto dela. Bato à porta e digo A novela está a começar, e espero ouvir os barulhos que ela faz ao mover-se. Espero sempre ouvir qualquer barulho.
Tenho medo do dia que deixe de ouvir.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/21]

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