Tenho Medo

Tenho medo.
Já chegaram 3 cartas do banco. A última chegou hoje, ao meio-dia. Não as abri. Não quero saber o que trazem.
Lá fora está um tipo à minha espera. Vejo-o daqui, da janela. Está atrás daquele carro. Já o vi a olhar cá para cima. Está agora a fumar um cigarro, a fingir que está ali por acaso.
Ontem, quando fui ao supermercado, percebi que a rapariga da caixa também estava a controlar-me. Registou tudo o que comprei. Já estava à espera. Trouxe um pacote de manteiga no bolso do casaco, para a despistar.
O tipo que está lá em baixo vai olhando para aqui, mas não vê nada. Não há luz. Não tenho luz. Não paguei a conta da electricidade.
Tenho medo.
Acendo um cigarro e sento-me aqui na escuridão. Não quero ver ninguém. Tenho medo das pessoas. São perigosas. Querem fazer-me mal.
Pois. Recomeçou a tocar. O telefone está outra vez a tocar. Não se tem calado desde há vários dias. Todos os dias. Várias vezes ao dia. Não sei quem é. Nem o que querem. E não quero saber. Tenho medo de saber o que é que querem de mim. Não tenho nada para dar a ninguém. Sou um zero anónimo. Nada tenho que possa interessar a quem quer que seja.
Está a jogar o Benfica. Gostava de ver o jogo. Mas não tenho televisão. Nem internet. Tive que acabar com a internet. Estavam a espiar-me. A câmara do computador ligava-se sozinha e viam o que eu estava a fazer. E não quero que saibam o que eu faço. O que eu faço é pessoal. É meu. Meu.
Tenho medo. Queria comprar uma arma. Uma pistola. Para fugir quando me quisessem agarrar. Para poder ser livre. Para poder disparar na minha cabeça quando ela começar a tombar.
Levanto-me. Vou até à janela e olho para a rua. O tipo já não está lá. O tipo vem aí. Sinto que está a subir as escadas. Vou esconder-me debaixo da cama. Não me vai encontrar. Devia ter atendido o telefone. Devia ter aberto as cartas do banco. Devia ter sido outra pessoa. Os comprimidos? Onde estão os comprimidos? Preciso de um comprimido. Quero ficar invisível. Quero desaparecer, esconder-me. Quero ir para além de lá. Não quero nada. Não procuro nada. Não desejo nada. Não quero que o tipo venha aí à minha procura. Quero ter luz. Internet. Quero ver o Benfica. Quero ver o Benfica a ganhar o jogo.
Quero sair de casa. Ir ao jardim. Correr na praça. Olhar os pombos. Sentir a chuva. Ver os relâmpagos a cair no mar. Ser feliz. Ser feliz e não ter medo.
Não quero sentir medo.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/17]

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