O Relógio Não Pára

O relógio não pára.
Há dois meses que deixei de comprar o medicamento para a asma. Há uma semana fiquei sem telemóvel. Ontem cortaram a luz. Amanhã, provavelmente, irão cortar a água. No final do mês não vou conseguir pagar a renda da casa.
E o relógio não pára.
Tenho um rim para vender. Metade de um fígado. Acho que também posso dispensar um pulmão. Tenho cabelo para quem dele precisar. E ainda posso engravidar esposas de maridos inférteis.
Mas o relógio não pára.
Tenho pressa.
Não preciso de trabalho. Trabalho tenho bastante. Entre uma coisa e outra, entre a ajuda e o pro bono, entre o prestígio e o correr por gosto, entre o saber fazer e o conhecer, entre a obrigação e o prazer, tenho trabalho.
Preciso é de dinheiro. Preciso de dinheiro para viver. É preciso dinheiro para viver.
Porque o relógio não pára.
Mas já não sei as horas.
Acendo uma vela e procuro no fundos dos bolsos das calças e dos casacos qualquer moeda esquecida. Procuro nos cantos das gavetas todas cá de casa uma qualquer moeda perdida. Enfio a mão nas nesgas do sofá à procura de uma moeda caída.
Olho para as garrafas de vinho vazias no canto da cozinha e compreendo que já não se paga vasilhame.
Olho para os livros, para os cd’s, para os dvd’s, para o iPhone, para o iPad, para o iPod, para o Mac, para a Playstation, para o Wii, para a XBox e penso Amanhã têm de ir.
O relógio não pára, mas já não sei onde anda. Olho para o pulso e vejo-o vazio. O que é feito do meu Omega Speedmaster?
Conto as moedas encontradas.
Saio de casa. Entro no primeiro café e compro um maço de cigarros. Sem filtro são mais baratos. Vou ao supermercado e compro um pacote de vinho tinto.
O relógio não pára. Mas não sei as horas. Sei que já é de noite.
Sento-me nas escadas do teatro. Abro o pacote e bebo um grande gole de vinho. Tiro um cigarro do maço, acendo o isqueiro e olho admirado para a minha mão Olha, ainda tenho o Zippo, acendo o cigarro e penso Amanhã já não.
Olho à volta e estou sozinho e penso Ainda bem. Encosto-me à parede e deixo-me ir.
Já não há tempo.
Um passo… Outro passo… E depois?

[escrito directamente no facebook em 2018/03/12]

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