Um Regresso

Há muito que lá não ia.
Abri a porta e vi a escuridão. Entrei. Liguei o interruptor mas não houve luz. Fui abrir as janelas. As persianas. As portas.
Um cheiro nauseabundo inundava a casa. Mofo, especialmente.
Algumas teias de aranha penduradas nos candeeiros. Ainda vi as aranhas a subir pelas teias acima.
Nos cantos da casa senti o caminhar metálico das baratas tica-tica-tica… Vi uma enorme. Percebi que não era uma barata. Era um rato. Bati com o pé no chão e levantei uma grande poeirada. O rato fugiu. Andou a fugir pelos cantos da casa, feito doido. Depois deve ter arranjado um buraco e desapareceu.
Fui à cozinha. Abri um armário e apanhei umas velas de cheiro. Acendi-as. Espalhei-as pela casa.
A mesa da sala estava tombada. Tinha perdido uma perna para as térmitas.
Dei uma volta pela casa. Vi o estado em que estava. E pensei Vou ter de dormir aqui, hoje?
Passei na casa-de-banho. Levantei a tampa da sanita e senti qualquer coisa a mexer lá em baixo, na água. Urinei. Carreguei no autoclismo mas a única coisa que saiu foi um grito estridente dos canos a dizer que não havia água para despejar.
Olhei à volta.
Precisava de fazer alguma coisa.
Saí da casa-de-banho e andei até à porta da rua. Acendi um cigarro.
A luz do fim do dia deixou-me ver a árvore morta que estava à frente de casa. Ainda tinha um baloiço pendurado num ramo.
Pensei que o melhor seria voltar no dia seguinte com alguém que soubesse o que fazer.
Acabei o cigarro.
Apaguei as velas. Fechei as janelas. As persianas. As portas.
Deixei de ver a bicharada a mexer-se. Devia estar toda escondida.
Empurrei a porta da rua. Não queria fechar. Empurrei-a com força. A porta bateu com estrondo. Fechei à chave.
Tinha andado cinco metros quando a varanda do primeiro andar caiu. Ali, ao meu lado.
A casa estava a desfazer-se. Mas queria preservá-la. Uma parte de mim estava ali. Uma parte de mim fora ali construída. Não podia desistir das minhas memórias.

Era o que me restava.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/30]

Ela Deu-me um Estalo e Eu Respondi

E foi aqui que tudo se descontrolou.
Ela deu-me um estalo. E eu respondi. Não queria tê-lo dado. Mas dei. Foi um reflexo. Levei um estalo. E respondi.
E agora era tarde. Tarde demais para voltar atrás. Não podia não dar o estalo. Mas ele estava dado.
E então?
Então ela começou a gritar, a gritar que eu lhe tinha batido Socorro! Socorro, ele bateu-me! Este cabrão de merda bateu-me! e eu bati-lhe outra vez para ela se calar. Mas não se calava. E eu continuei a bater. E ela a gritar. E quanto mais ela gritava, mais eu lhe batia. E quanto mais eu lhe batia, mais ela gritava.
No fim ela já não gritava. Eu já não lhe batia.
No fim, foi o fim.
O fim dela.
O meu fim.
Deixei-a lá em casa. Telefonei à polícia e fui embora.
Fugi.
Desapareci.
Deixei de ser.

Quando morri, anos mais tarde, fui à procura dela.
Nunca a encontrei.
Mas tenho a eternidade toda para a procurar.
Preciso de a encontrar.
Preciso de lhe pedir desculpas.
Preciso de descansar.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/29]

A Picadela do Peixe-Aranha

Eles chegaram à praia e trouxeram o barulho.

A praia estava quase vazia, mas escolheram, precisamente, aquele espaço ali ao meu lado.

O pai desatou logo a peidar-se. A mãe disse Então, Zé? Não estás em casa!, e o filho mais novo começou a rir, estridente, e acabou a rebolar no chão. A filha, um pouco mais velha, uma adolescente já com outros interesses, ignorou por completo a família, estendeu a tolha, despiu o vestido e largou-se com o fato-de-banho mínimo a bronzear-se.

O pai foi a correr ao mar, ainda de calções e t-shirt, mergulhou atabalhoadamente, e regressou molhado e foi sacudir-se para cima da filha que fez sair um Foda-se, pai! Que levou a mãe e o irmão a rir.

Eu bufei.

O pai despiu a roupa, ficou nu e nu andou a pendurar a roupa molhada em cima do chapéu-de-sol até a mulher lhe dizer Oh, Zé, não andes a mostrar as vergonhas que quem fica com vergonha sou eu! E o filho riu e a filha olhou para mim e fez má-cara a tentar encontrar em mim um aliado contra a família.

Não respondi. Virei costas à família e deitei-me ao contrário, a tempo de ver chegar outra família a assentar arraiais à minha beira. Oh, que caralho.

O pai chegou e partiu. Foi caminhar. A filha despiu-se, passou bronzeador pelo corpo enquanto olhava para mim a olhar para ela e depois deitou-se, com o rabo virado para mim, e deixou-se adormecer. A mãe agarrou-se ao telefone. Nunca mais o largou.

Entre os peidos do pai de uma família e os telefonemas da mãe da outra, não sabia o que fazer.

Levantei-me e fui ao mar.

Estava a tentar entrar na água, entrando centímetro atrás de centímetro a tentar sobreviver ao frio atlântico, quando pisei no que supus ser um peixe-aranha. Uma dores diabólicas. Gritei um Caralho, foda-se! que fez toda a gente olhar para mim. Caí na areia. As ondas passavam-me por cima.

Um nadador-salvador foi lá puxar-me para terra. À minha volta uma série de curiosos. Alguém disse Mordida de peixe-aranha! E logo outro alguém que estava a fumar disse Queima-se a ferida para não infectar, e agarrou-me o pé, soprou para o cigarro para intensificar o borrão de cinza e queimou-me o pé, eu gritei, mandei o tipo P’ró caralho! e o nadador-salvador disse Tenho ali um desinfectante e foi buscá-lo e entretanto chegou o pai da primeira família e disse que O mijo desinfecta tudo, sacou da pila e mijou-me no pé à frente de toda a gente e eu mandei-lhe um pontapé nos tomates e saí dali a coxear, apanhei a minha toalha, a roupa e os chinelos e fui embora da praia.

A partir de amanhã só vou para a piscina e nas horas de maior calor.

Odeio pessoas.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/28]

Uma Casa Cheia de Buracos

Devia ter ido para a rua.
Devia ter ido atrás dos outros todos para a rua, gritar, gritar a plenos pulmões o meu amor pelo país que acabara de passar à fase seguinte do campeonato do mundo de futebol.
Não consegui.
O meu amor pelo futebol não é assim tão grande.
O meu amor por este país também não me motiva a tanto.
Fiquei em casa agarrado a um copo de vinho tinto que já nem sei o que era. Uma garrafa seguiu-se à outra enquanto enfardava um bocado de broa a acompanhar umas sardinhas em lata enquanto via o jogo.
Depois fiquei mal-disposto.
Nem cheguei a ver a grande penalidade iraniana. Nem o quase-golo que lhes daria a vitória. Nem o desespero de Carlos Queiroz.
Passei a segunda metade da segunda parte a vomitar na casa-de-banho.
Quando voltei à sala, de estômago vazio, já o jogo tinha terminado, o pais estava apurado e a população manifestava-se ruidosamente debaixo da minha janela.
Sentei-me no sofá e enchi a pança com o resto da garrafa.
Acendi um cigarro.
Adormeci com o cigarro na mão.
Um borrão de cinza tombou no sofá e fez um buraco.
A minha casa está a ficar toda assim. Cheia de buracos de cigarros. Cheia de baratas que entram pelos buracos do lava-louça. Cheia de mosquitos que aproveitam as frinchas das janelas quando preciso de um pouco de ar fresco.
No outro dia cruzei-me cá em casa com um rato. Um rato gordinho. Não consegui apanhá-lo. Ainda anda por aí, que eu ouço-o a andar de um lado para o outro. E ontem encontrei cocó de rato no canto atrás do guarda-fatos.
Preciso de o encontrar. E quando o encontrar faço um guisado. E depois convido a minha vizinha do lado para cá vir jantar.
Preciso de conversar.
Preciso de falar e de ouvir outras vozes.
Estou farto de me ouvir a mim.
A minha vizinha parece-me uma boa ideia.
Tenho de encontrar o rato.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/26]

O Dia em que Cristiano Ronaldo Falhou uma Grande Penalidade

Era dia de jogo.
Portugal defrontava o Irão e ambas as equipas a querer seguir para os oitavos-de-final. Nos bancos, dois treinadores portugueses: Fernando Santos no banco português; Carlos Queirós no banco iraniano.
Fui para casa mais cedo.
Agarrei numa cerveja, fria, e num maço de cigarros. Fui à varanda e vi a cidade a ficar vazia. Fumei um cigarro. Despejei a garrafa. Voltei para dentro.
Agarrei noutra garrafa e fui para a sala.
Sentei-me no sofá e liguei a televisão.
Os hinos. Um. O outro.
Começou o jogo.
E perdi-me.
Agarrei no iPad e fui à procura de notícias.
Deparei com a novela Bruno de Carvalho. O homem apaixonado que se desapaixona. O tipo que sai e fica. O gajo que desiste e que volta. A personagem que vai e vem. Leio sobre o homem dos tremoços, sobre os arrogantes, os sportingados, os viscondes e os do croquete.
O Irão está a complicar a vida aos portugueses. O Rui Patrício acabou de levar com um pontapé na cabeça.
Passo à frente. Reencontro Donald Trump. O homem nunca deixa de ser notícia. Ainda as crianças. As crianças separadas dos pais. História de migrantes. As crianças são levadas não sei para onde e perde-se o rasto a uma série delas. Parece que a culpa é dos democratas. E de não o deixarem construir o muro. A culpa é do muro. O país de imigrantes é contra a imigração.
E de repente, o bruá na televisão. Portugal marca golo. Quaresma marca golo. Parece que estamos a ganhar.
Quaresma é um emigrante na Turquia. Um emigrante de luxo. Mas um emigrante. Um emigrante no país de Erdogan que ganhou as eleições ontem. Erdogan é a Turquia. Mas não é a Turquia.
É grande penalidade a favor de Portugal e Cristiano Ronaldo falha.
Foda-se!
Continuo pelas notícias. Itália. Não quero saber da Itália. Esta Itália voltou ao fascismo. Penso na falta de memória. Na ausência da história. Da supremacia da economia e finanças. Porra, Itália, também tu? Recordo as pedras em que tropecei quando a visitei e penso A Itália está cheia de história. Afinal…
E o Cristiano Ronaldo falhou uma grande penalidade.
Passo pela Hungria e já só dá para rir. A Europa fascista. A Europa dos muros. A Europa que deitou abaixo o muro de Berlim e que acaba a construir muros a torto e a direito e em todo o lado. É Trump na Europa.
Já me esquecia de Israel. Não está nas notícias. Não está nas notícias agora, porque já não é notícia, é sempre mais do mesmo, mas enquanto a bola vai-e-vem, lembro-me de Netanyahu. Do fascismo sionista.
E o Cristiano Ronaldo falhou uma grande penalidade.
Olho para o papel que tenho ali, em cima da mesa da sala. E acabo a cerveja. Levanto-me e vou ao frigorífico buscar outra. Olho para o papel que um amigo me enviou com notícias sobre o norte de Moçambique. Notícias que não vêm nas notícias. Grupos islâmicos andam a atacar aldeias no norte de Moçambique. Na província de Cabo Delgado. Que merda!
E o Cristiano Ronaldo vê cartão amarelo. Falhou uma grande penalidade. Os iranianos estão furiosos. No outro jogo do grupo a Espanha está a perder com Marrocos. O mundo está louco.
Uma boa notícia vinda de Inglaterra. No meio de tantos fascismos que se manifestam na Europa, alguns ingleses, alguns, muitos, ingleses, manifestam-se a exigir outro referendo porque estão contra o Brexit. Estão arrependidos. Querem a Europa. Querem voltar à Europa. A Europa que está a virar ao fascismo. Como o mundo. O grande mundo.
E há uma grande penalidade contra Portugal. E o puto da Matoeira não agarra a bola.
E o Irão empata o jogo.
E a Espanha empata o jogo.
E agora olho para a televisão e vejo a tremedeira habitual.
Não é normal o Cristiano Ronaldo falhar grandes penalidades. Mas falhou. E agora a equipa portuguesa treme por todos os lados.
O jogo lá acabou por terminar. Com empate. O Cristiano Ronaldo falhou uma grande penalidade.
O que é que o Bruno terá a dizer sobre isto?
E quantos imigrantes estarão a morrer no Mediterrâneo?
E aqui? À minha volta?
Quantos estão a morrer?
Quem está a morrer?
Porque é que não faço nada?
Estarei eu, também, morto?

[escrito directamente no facebook em 2018/06/25]

Formas de Me Deixar Desconfortável

Vinha da praia.
Vinha cansado, salgado, a pingar e cheio de sede.
Entrei na esplanada. Acendi um cigarro. Pedi um copo de Alvarinho. Bem fresquinho que estava com sede e a morrer de calor.
Ao fundo, na sombra, uma tela projectava um jogo do Campeonato do Mundo de Futebol na Rússia. Já não sei que países se defrontavam. Nem me recordo das cores. Mas o bailado estava bonito. A bola movimentava-se de um lado a outro. Os jogadores corriam, lançavam a bola em profundidade, e acabaram por marcar vários golos. Já não recordo quantos. Mas alguns.
Acabei o copo.
Pedi outro.
Entrou outro eu na esplanada. Alguém que também chegou molhado, cansado e, aparentemente, cheio de sede. Trazia um cão pela trela. Era um misto entre o Labrador e o Terrier. Na verdade nem sei que cão era. Visualmente fazia lembrar-me uma mistura entre os dois.
O tipo pediu um gin daqueles esquisitos cheio de coisas a boiar em copo extra-large.
Sacou de um ventilan do bolso e mandou uma bombada. Depois virou-se para o cão, levantou a ponta da trela, em jeito de ameaça e disse Deita! Deita, já disse! Queres que me chateie?
O cão até estava calmo. Em pé, mas calmo. O dono é que parecia agitado.
Aquilo incomodou-me. Acendi outro cigarro no resto do anterior.
Pensei que os cães já podiam entrar nos sítios públicos, nos cafés, nos restaurantes, nas esplanadas.
E pensei nas pessoas que têm fobia aos cães. Pensei nas pessoas, nas crianças, que têm medo de cães. Nas pessoas que já foram mordidas e que agora fogem aos animais e que acabam por ter de partilhar o mesmo espaço com eles.
Beberiquei um pouco do Alvarinho. Estava bem fresco. Gaita, sabia-me mesmo bem.
Olhei para o tipo e para o cão e percebi que ali, naquele momento, naquela situação, o problema nem era o cão. Era o dono.
O dono do cão estava a deixar-me desconfortável. Era uma personagem nervosa. Irritável.
Levantou a pega da trela e bateu com ela no focinho do cão. Duas vezes. Deita! Deita, já disse! E o cão deitou. Chegou o gin e o tipo bebeu quase metade do copo no primeiro gole.
Eu não conseguia mais estar ali.
A esplanada tinha-me parecido um refúgio. Um espaço para um momento. Uns copos para relaxar numa espécie de oásis. Onde recuperar forças.
Mas já não era. Não aquilo.
Não! Não aquilo!
Acabei o copo. Larguei cinco euros na mesa na esperança que chegasse para pagar os dois copos que bebi. E saí da esplanada.
Precisava de calma na minha vida. Muita calma.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/24]

Parado à Beira-Mar sem Me Conseguir Mexer

Desci à praia.
Desci aquele caminho íngreme até à praia. De calções de banho, toalha ao ombro, chapéu na cabeça e o telemóvel na mão.
Cheguei à praia e caminhei ao longo da beira do mar para fora da confusão. As pessoas têm tendência para se aglomerarem à entrada ou saída. Querem estar prontos para o que der e vier. Eu, ao chegar à praia, tive que fugir à multidão acumulada logo ali, depois da descida da enorme ladeira.
Afastado, estendi a toalha, sentei-me, olhei o telemóvel e vi que não tinha rede.
Deitei-me. Estava quente. O barulho das ondas do mar a morrer na areia embalava. Deixei-me adormecer.
Acordei transpirado. Estava com a boca seca. E sem água para beber.
Fui ao mar.
Entrei devagar. Molhei-me. Mergulhei. Nadei um bocado em frente. Voltei para trás. E saí.
Fiquei em pé ali, a olhar o mar. Chegou uma rapariga. Começou a entrar devagar também. De repente, falhou-lhe o pé. Tropeçou e caiu. Ficou debaixo de água. Nunca mais subia. Comecei a ficar nervoso. Apareceu uma mancha vermelha, vinda lá debaixo. Sangue, provavelmente. E eu não conseguia mexer-me. A mancha era cada vez maior.
Um rapaz passou a correr por mim, mergulhou rápido e nadou até à mancha vermelha. Depois emergiu com a rapariga desmaiada nos braços.
Olhei e vi o pé da rapariga tombado, virado ao contrário, com um pedaço de osso de fora e sangue a cair abundante para o chão.
O rapaz passou por mim e foi a correr, com a rapariga nos braços, praia fora. Começou a juntar-se gente a acompanhá-lo.
Eu fiquei ali parado, à beira do mar, sem me conseguir mexer.
Até que lá acabei por sair, arrastando-me até à toalha, preocupado com a minha inércia. Sentei-me. E olhei o mar. E o mar estava a desaparecer.
Estava a cair um nevoeiro tão rápido tão rápido que começou a apagar toda a praia, o mar, a areia, as arribas, as pessoas, a miúdas, os rapazes, o cão, tudo…
Levantei-me depressa, peguei na toalha, no chapéu, no telemóvel e tentei correr, nos limites do que me é possível correr, para sair da praia. Passei por cima de outras pessoas, de toalhas, de chapéus que acabei por deitar ao chão.
Estava cansado. A subida era terrível. Tive de parar várias vezes. O nevoeiro perseguia-me mesmo. Estava a comer o que eu deixava para trás. Estava a morder-me os pés. Até que, finalmente, atingi o cimo da arriba. Estava acima do nevoeiro. A praia tinha sido toda comida. A praia e os veraneantes que tinham ficado lá em baixo.
Consegui sobreviver.
Ainda vi a rapariga a ser colocada dentro de uma ambulância do INEM que partiu de sirenes a gritar a dor alheia.
O nevoeiro olhava para mim e ameaçava-me. Que porra se passa comigo?

[escrito directamente no facebook em 2018/06/23]

A Manada

Era Sexta-feira.
A Manada saía de casa e ia divertir-se para a noite.
A casa da Manada, contudo, era uma cela na cadeia do Linhó. A Manada passava a semana na cadeia e, ao fim-de-semana, abriam-se-lhes as portas da rua para que pudesse dar azo à sua brutalidade existencial.
Claro que a Manada não podia ser brutal no interior da cadeia porque por lá só havia homens. A Manada não gostava de exercer a sua brutalidade contra homens. A Manada tem cu e, quem tem cu, tem medo.
A Manada só conseguia ser brutal com mulheres. Porque a Manada só tinha força contra quem não tinha força para revidar. Contra quem era mais fraco. Quem estava mais só. Indefeso.
A Manada era um grupo de gajos de pila encolhida que se excitava com o medo que incutia nos outros. Nas outras.
O juiz que julgou e condenou a Manada era corporativo e achou por bem deixar, na condenação, à qual não podia fugir, uma linha de escape: aos homens o que é dos homens, às mulheres o que é das mulheres, à Manada o que eles quiserem.
Portanto, era Sexta-feira.
As portas abriram-se e a Manada saiu, de cornos no ar, a bufar, furiosa, à procura de diversão.
Saíram do Linhó.
Iam a abrir pela Marginal. O pé a carregar no acelerador. As latas de cerveja a serem despejadas, amachucadas e lançadas janela fora. A unha do dedo mindinho, grande, que não era cortada, mas cuidada e limada, entrava no frasquinho e levava pó às narinas fumegantes e excitadas.
Onde estão? Onde estão? Gajas! Queremos gajas! Mu!
Foi numa curva, por sinal bem ligeira, ali em Paço d’Arcos, que a Manada, ao ultrapassar uma carrinha de farturas, entrou aos papéis, as mãos não conseguiram agarrar o volante, a falta de cintos de segurança levou a que a Manada andasse aos trambolhões dentro do carro que guinou, virou-se, capotou e foi a deslizar estrada fora até cair no mar.
O carro foi engolido.
Nenhum deles sobreviveu.
A noite de Lisboa suspirou aliviada.
No Sábado seguinte, à noite, todas as mulheres saíram para dançar, beber, fumar, divertirem e dizer sim ou não conforme quisessem. E se quisessem.
A Manada foi enterrada em silêncio e solitária em vala comum.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/22]

Welcome to Everywhere

Vou de viagem.
Estou entre sítios. Nem sei bem onde estou. Estou aqui, mas não sei onde.
Estou parado numa encosta. À minha frente abre-se o vale e lá em baixo corre um rio.
Sento-me a entrada do quarto. Estou num pequeno motel nas montanhas. Ouço o chilrear dos pássaros. Os rápidos a correr lá ao fundo.
Agarro na guitarra, ligo o Fostex e ponho-me a gravar uma música.
Tinha o início de uma letra e uma malha para a guitarra e parto daí. Vou improvisando. No fim ouço o resultado. Não está mal. Agarro na Moleskine e aponto as alterações a fazer. Rescrevo a letra. Assento umas notas. Umas linhas musicais.
Acendo um cigarro. Dou uma volta a pé, ao redor do meu quarto até acabar o cigarro. Aproximo-me da recepção. Apago a beata num canteiro de flores. Entro.
Dou uma vista de olhos nos jornais e revistas. E depois vejo. Vejo a revista Time. Vejo a capa da revista Time. Welcome to America.
Foda-se.
Welcome to America.
Paragem de digestão.
Febre.
Vómitos.
Os braços tremem. As pernas também.
Largo a revista no balcão e saio da recepção.
Volto ao quarto. À entrada do quarto.
Estou nervoso.
Agarro na guitarra.
Agarro na guitarra, levanto-a acima da cabeça e faço-a descer rápido e com força contra o chão. E repito o gesto várias vezes até não restar já nada de aproveitável.
Welcome to America.
Respiro fundo. Repito. Respiro fundo.
Ligo o Fostex e deixo-o a gravar o ambiente. Os pássaros. O rio. Os rápidos lá ao fundo.
Lá do fundo vem um grito. Vários. Um tiro. Dois. Três tiros. Confusão. Gritos. Mais tiros.
Continuo sentado. Deixo o Fostex continuar a gravar. Olho para o rio, tão bonito, ladeado de árvores frondosas, a correr lá em baixo, ao fundo. Gente a correr numa das suas margens. Gente a fugir. Gente a fugir com medo.
Welcome to everywhere.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/21]

Mão Morta, Mão Morta Vai Bater Àquela Porta

Estávamos encostados à entrada de uma porta de prédio a fumar. O charro circulava. Mas fumávamos depressa porque estávamos atrasados. Estávamos todos atrasados para o mesmo.
Matámos o charro e fomos.
Aguentámos a fila cheia e caótica. Rimos. Rimos bastante. Rimos feitos parvos.
Quando chegámos lá dentro fui buscar uma cerveja e arranquei para o pé do palco. Perdi os outros tipos que devem ter ido para a casa-de-banho. Mas eu tinha de aguentar. Queria ficar ali. Queria ser o primeiro.
Ao meu lado foi chegando mais gente. A frente do palco ficou cheia. Uma miúda virou-se para mim com a mão levantada e perguntou-me Queres? e eu disse Sim. E enfiou-me não-sei-o-quê na boca e eu engoli o não-sei-o-quê e empurrei com um gole de cerveja.
Depois chegou a banda e começou a tocar. E eu via e ouvia e delirava.
Uma pedra!, diria eu mais tarde.
Um concerto do caralho!, reforçaria.
Mas a verdade é que a partir de certa altura o concerto se tornou uma coisa muito estranha.
Lembro-me do vocalista aproximar-se de mim, com uma ponta-e-mola na mão e ameaçar-me. Tentou por duas vezes espetar-me a navalha entre os olhos e não conseguir e depois, acabou por cortar a própria perna.
Eu vi o tipo gritar, levantar a mão com a navalha, e depois baixá-la uma, duas, três, quatro vezes, e cada vez que baixava a mão com a navalha, cortava a perna. Primeiro as calças, depois, cada vez que a mão descia, o sangue esguichava. A minha t-shirt acabou cheia de sangue e eu senti-me uma elemento da história daquele concerto.
Entrou um roadie com uma fita, e enrolou a fita na perna do vocalista e fez um garrote.
Os músicos olhavam uns para os outros e não sabiam se deviam continuar, mas o vocalista continuava em êxtase, a cortar a perna, a lançar sangue para o público e aos pulos acompanhando o ritmo cadente do baixo, até que caiu de borco no chão. E já não se levantou.
Os músicos ainda tentaram continuar, repetiram a malha várias vezes à espera que o vocalista se levantasse. Mas tal não aconteceu. Ele caiu e não se levantou mais.
O roadie entrou em palco com outro tipo e levou o vocalista embora. Depois, o baterista levantou-se e saiu, também. O baixista seguiu-o. Por último o guitarrista fez um solo, deixou a guitarra em loop e foi também embora.
Ao meu lado parecia tudo maluco. Dançavam aos murros e pontapés uns aos outros.
Eu queria sair e não conseguia. Eu queria ir embora mas não me consegui mexer.
Ainda aqui estou à espera que alguém me venha buscar. Já não aguento o cheiro a sangue na minha t-shirt.
Quero ir tomar banho. Quero mijar. Quero uma cerveja. Um cigarro. Uma gaja.
Mais um não-sei-o-quê.
Foda-se! Uma Pedra! Que concerto do caralho!

[escrito directamente no facebook em 2018/06/20]