Vi à Minha Frente uma Vaca a Voar

Vi passar uma vaca à minha frente.
Vivo num terceiro andar e, da janela da cozinha, vi passar uma vaca a voar à minha frente.
Apareceu um furacão aqui na cidade. Não sei de onde é que ele veio. Não sei onde é que se formou. Mas aqui, na cidade, libertou milagres.
Só na minha rua desfez a esplanada da pastelaria. Os chapéus foram os primeiros a voar. Logo seguidos das mesas e cadeiras. Ainda vi uma pessoa agarrada a uma porta, de pernas no ar, mas que conseguiu entrar dentro da loja. Não apareceu mais ninguém na rua. As pessoas esconderam-se. Alguns carros ganharam vida. Deslizaram pela estrada empurrados pela força do vento. Uns subiram para cima de outros. Houve um que se enfaixou na varanda do primeiro andar. Placas, ramos de árvore, árvores, motas, bicicletas, arbustos inteiros, lixo, pedaços de vida tornados lixo, tudo a voar pelo meio da rua e a subir até à janela da minha cozinha.
Eu acendi um cigarro, mas não abri a janela. Era muito o vento. E assobiava. Fiquei ali a ver o drama a desenrolar-se à minha frente. Nunca tinha visto nada do género. O ar parecia riscado a grafite com a quantidade de… Coisas… Que rodopiavam num remoinho sem fim. O prédio em frente perdia as telhas. As tralhas que os vizinhos guardavam nas janelas já tinham levantado voo há muito tempo. Alguns vidros partiram-se.
E foi então que a vi. A vaca. Estava a voar à frente da minha janela. O cigarro caiu-me ao chão.
Virei-me para o interior de casa e chamei-a. Gritei Anda! Anda cá ver isto! e saí para a varanda, agarrado, com força, à grade de ferro.
A vaca deu uma volta circular e estava, de novo, a aproximar-se da varanda quando ela chegou e eu, apontando a vaca disse-lhe Olha! Olha ali! e ela olhou e abriu a boca de espanto.
Agarrou-se como eu à grade da varanda e depois estendeu o corpo para fora para ver melhor o trajecto que a vaca estava a levar.
E, de repente, tudo parou. Tudo parou para mim.
O vento parou. A chuva parou. O barulho parou. O tempo parou. Tudo parou. E eu fixei o meu olhar nela, e no seu corpo estendido sobre a grade da varanda a ver o trajecto da vaca e tive tempo para analisar todas as variáveis da minha vida, todos os prós e os contras, vi com extrema clareza os diferentes caminhos que a minha vida poderia levar ao optar pelas diferentes soluções. Pensei, analisei, estudei, desejei e decidi.
E tudo recomeçou de novo a funcionar e eu estendi o braço sobre as costas dela e empurrei-a para o meio do furacão, e foi o bastante para ela galgar a varanda e ser arrastada, juntamente com a vaca, num remoinho imparável. E vi-a ganhar altura, olhar para mim por segundos e mostrar todo o horror nos seus olhos, e depois, girar, girar cada vez mais rápido e cada vez para mais longe de mim, ela e a vaca, até desaparecerem as duas lá no alto, onde a minha vista já não conseguia alcançar e, depois, depois o tempo acalmou e tudo morreu.
Todas as coisas que estavam a voar, caíram. Parecia uma chuva de objectos bizarros. Mas houve coisas que desapareceram. Entraram noutra dimensão.
Parou de chover. De fazer vento. Parou o barulho. A esplanada tinha desaparecido. O cão do vizinho da frente, também. Nunca mais vi a vaca. Nem a vi a ela.
Fui à cozinha buscar um cigarro e voltei para a janela para ver se a via. Tinha de me certificar que não, que ela não voltaria.
Já passaram dois dias.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/05]

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