A Vertigem de um Desejo

Vivo numa casa que está por cima do rio.
A casa onde vivo faz parte de um edifício que cruza o rio de uma margem à outra, criando um pequeno túnel por onde a água corre e, nos dias de Verão, onde pares de namorados param as gaivotas para poderem dar aso aos seus desejos físicos mais urgentes e carnais.
Todos os dias vou à varanda de minha casa fumar um cigarro e ver a água a passar, com pressa, por baixo de mim. Nas margens são os curiosos que se juntam para observar este devaneio arquitectónico que já quiseram deitar abaixo.
Não deitaram.
E eu continuo a ir à varanda fumar um cigarro, olhar a fúria da água e observar as pessoas à distância.
A água que passa lá em baixo, numa correria louca, exerce em mim um grande fascínio. É uma espécie de lareira. Começamos a olhar para ela e, quando damos por nós, já não estamos lá, já estamos hipnotizados e já não somos donos do nosso destino.
Há alturas em que o desejo é uma vertigem.
Hoje foi uma dessas alturas.
Estava na varanda a fumar um cigarro e a ver a água a correr, a observar os vincos que a sua força criava na fuga para diante, e a deixar-me embalar pelo som que subia do leito pelas paredes do prédio, quando lancei fora a ponta do cigarro, subi para a grade da varanda e mergulhei.
O mergulho foi perfeito. Entrei de cabeça, com os braços esticados à minha frente, e o corpo hirto entrou no leito tão direito que mal se ouviu o mergulhar. Parecia uma agulha a furar linho. Mal toquei na água, virei o corpo para cima e o impulso levou-me debaixo de água durante muitos metros, uma quantidade enorme de metros e, quando emergi, quando a minha cabeça veio à tona, já estava fora da cidade e ia embalado na corrente pelos Campos do Lis fora.
Depois não foi muito difícil. Ia dando, calmamente, aos braços, a nadar suavemente, porque a corrente cuidava bem de mim, e fui por ali fora, levado pelo rio que passava debaixo de minha casa e seguia até ao mar.
À medida que me aproximava da foz do rio, na Praia da Vieira, sentia uma enorme angústia a crescer dentro do meu peito, não sei se era por estar a afastar-me de casa, se era o prenúncio de algum acontecimento, mas a necessidade, não muito grande diga-se, de nadar, ia disfarçando.
Quanto mais me afastava de casa, mais vontade sentia de a ela regressar. Mas continuei. Continuei por ali fora. Os braços já quase mal se moviam. A corrente, cada vez mais forte, fazia todo o meu trabalho.
Na última recta antes do mar, quando estava a passar debaixo da ponte da estrada que liga a Praia da Vieira ao Pedrogão, vi o corpo de uma rapariga a cair à água. Desviei-me um pouco na sua direcção e agarrei-a. Estava inanimada. Segurei-a. Nadei para a margem esquerda do Lis, poucos metros antes de entrar no mar.
Puxei a rapariga para a areia da margem, uma pequena praia muito apreciada no Verão, e tentei reanimá-la. A princípio ela não reagiu mas, depois, acordou, vomitou água e tossiu. Agarrou-se ao meu pescoço a chorar e a cantar o Let England Shake da PJ Harvey.
Olhei para o lado e vi o telemóvel, em cima da pequena mesa de apoio, na varanda, a tocar. Tinha ainda um resto de cigarro nos dedos, já apagado e, lá em baixo, a água do rio continuava a correr furiosa. Indiferente aos meus desejos.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/04]

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