Eu, a Preto e Branco

Tinha uma data de livros empilhados à entrada de casa. Não sabia onde os meter. A casa é pequena e não abunda espaço vazio. Mas ali à entrada estavam no caminho das baratas. Tinha de os tirar de lá.
Abri o armário e vi o aspirador. O aspirador que já não saía dali há meses porque estava avariado. Tirei-o do armário e coloquei-o na rua, à porta de casa. Peguei nos livros e enfiei-os no armário. Ficaram empilhados na mesma, sem ordem, só uns em cima dos outros. Pelo menos consegui que ficassem com a cota virada para a entrada. Para perceber que livros eram. Mas não fiquei satisfeito com a arrumação. Não gosto dos livros arrumados assim, em pilhas, como se estivessem acampados. Como se eu fosse desleixado com eles. Como se eu não me importasse com a sua vida. Com as estórias que me contam. Mas importo. Importo sim. Às vezes até mais do que com as pessoas.
Fechei a porta do armário e pus-me a varrer a casa. É inacreditável a quantidade de cotão que surge do nada. Os montes de lixo agrupado nos cantos, debaixo dos móveis, no trajecto dos cabos de todos os aparelhos eléctricos e electrónicos da casa.
No fim transpirava. A respiração estava pesada. Aquele pó todo tinha-me activado um ataque de asma. Sentei-me no sofá e acendi um cigarro. Senti os pulmões a acalmar. E eu também. Relaxei. Levantei-me e abri a janela para deixar sair o fumo do cigarro, mas sabendo da quantidade de lixo que viria a entrar, de novo, em casa.
Depois saí. Peguei no aspirador e fui levá-lo ao ponto do lixo. Deixei-o de fora, encostado ao caixote do rsu.
E fui jantar.
Fui a uma cervejaria ali da zona. Sentei-me ao balcão. Pedi um bitoque e uma imperial. Enquanto esperava, fui à rua fumar um cigarro. Estava a chover. Tinha começado a chover e enfiei-me debaixo do beiral do prédio. Os pingos da chuva caíam no passeio e espalhavam-se por todo o lado e iam molhando-me as sapatilhas.
Ao fundo vi um casal a caminhar à chuva. Ela levava um chapéu-de-chuva. Ele levava a gola do casaco de ganga levantado. Mas iam a passo, como se a chuva não os incomodasse. Ela refilava com ele. Falava alto. Dizia muitas asneiras. Insultava-o. Mas nenhum deles olhava para o outro. Passaram à minha frente mas ignoraram-me. Ela continuou a falar alto para ele como se não me tivessem cruzado. A dizer coisas que eu não queria ouvir. Não devia ouvir. Mas as pessoas são assim. Fervem em pouca água. Agridem os outros. Dizem o que querem e o que não querem. Acusam-nos de tudo. Das maiores vilanias. Dos maiores crimes. Dali a pouco ela estaria a pedir-lhe perdão. Desculpa, diria ela. Ele não iria conseguir dizer não. E aquela relação iria perdurar até um deles se cansar, se passar e fazer alguma merda. Daquelas merdas que ocupam páginas no Correio da Manhã ou os programas do Hernani Carvalho.
Mandei fora o resto do cigarro e entrei na cervejaria à procura do meu bitoque.
Quando me sentei ao balcão olhei em frente e vi-me. Vi-me no espelho que estava à minha frente. Senti-me a preto e branco. Pesado. Cansado. E percebi que eu era a minha única companhia. Ninguém me gritava. Ninguém me batia. Ninguém me agredia. Ninguém iria fazer-me merda. Ou pelo menos assim eu acreditava.
O bitoque chegou.
Rasguei um bocado de pão e molhei-o no ovo a cavalo. A minha boca abriu-se e engoli aquele creme amarelo, tão saboroso que rapidamente me fez esquecer a minha solidão. E pensei que, lá em casa, dentro do armário, estava um livro à minha espera.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/26]

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