A Indiferença

Acordei constipado. Mal conseguia abrir os olhos. O nariz estava vermelho. Em carne viva tanto que me assoei. A expectoração acumulava-se na garganta. Acho que tinha febre. Os lençóis e a almofada estavam molhados. Tinha muito frio.
Pus os pés fora da cama e espirrei três vezes.
Fui tomar um antigripe. Uma porra qualquer que tinha cá por casa e que nunca me fez nada.
Coloquei um púcaro com água ao lume e fiz um chá de limão.
Telefonei para o trabalho, avisei do meu estado e informei que iria ficar por casa. Espirrei por duas vezes ao telefone. Funguei bastantes outras. Puxei o ranho uma vez, mas com bastante som. Que sim senhor, disseram lá do outro lado.
Desliguei o telemóvel.
Desliguei o lume do fogão e deixei lá o púcaro com a água.
Fui até à varanda fumar um cigarro.
Menti.
Não estou constipado. Não tenho expectoração. Não mais que o normal, pelo menos. Não tenho o nariz assado. Nem febre.
Acordei como o tempo. Cinzento. Chuvoso. Mal disposto.
Acordei sem vontade de ver gente.
Adormeci ontem a ver o noticiário. Dormi mal durante toda a noite.
Fui para a cama com a Síria na cabeça. Depois de Aleppo, Ghouta oriental. As violações. As crianças. Os crimes. Os crimes horrendos. E o mundo a girar nas suas ordens económicas e políticas e monetárias.
E a indiferença.
Fui para a cama com Trump na cabeça a dizer que se estivesse na escola teria corrido contra o sociopata mesmo sem arma. Com Trump a querer armar os professores para uma guerra fria nas salas de aulas.
Fui para a cama com a ganância de quem lucra com a miséria alheia. Com a desgraça dos outros. Com a guerra. E a fome. E as doenças.
E a indiferença.
Fui para a cama a pensar que há um partido autofágico na Assembleia da República.
Fui para a cama a pensar que o futebol, agora, joga-se sem bola, joga-se em palavras merdosas na boca de gente sem escrúpulos nem princípios.
Sim, eu sei. Sou parvo.
O que é que isso interessa?
Que interessa a estas pessoas que passam ali em baixo e entram no café e vão a correr na rua para escapar à chuva e carregam sacos de plástico com as compras do supermercado e almoçam no restaurante biológico e passam cheques a ONG’s que actuam no terceiro mundo e que mantém uma criança na escola durante um ano e enviam presentes coloridos pelo Natal e compram maçãs de Alcobaça e pêras do Bombarral e os iPhone montados na China? Que porra interessa as mortes de crianças, mulheres e homens em terras tão distantes que não lhes diz nada?
Mandei a beata pela varanda fora. Que se foda a ecologia.
O que interessa é o plágio do Diogo Piçarra. O valores da habitação em Lisboa e Porto que ainda estão muito aquém das principais cidades europeias. Que os salários não se equivalem não conta na equação.
Acordei mal-disposto e não me apetece ir trabalhar.
Há dias em que me apetece enfiar debaixo dos cobertores e nunca mais sair de lá.
Sim, sou parvo. Eu sei.
E a indiferença.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/27]

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