O Zolpidem É Bom

São nove da noite. Já jantei. Comi uns restos que ali tinha. Uns restos de restos que se foram acumulando em pequenas caixas em plástico, sem datas para não assustar.
Bebi um copo de vinho tinto. Estava já um pouco azedo. Mas bebi-o.
Já lavei a loiça que sujei. Toda a loiça. E o lava-loiças. E espremi a esponja e fechei a tampa da garrafa de detergente.
Lavei os dentes e sacudi a escova.
Escolhi roupa escura para lavar e pus a máquina a trabalhar. Depois olhei para mim e disse Foda-se!, estava com roupa escura que queria pôr a lavar e esqueci-me. E a máquina não estava cheia. Queria aproveitar os dias de sol que têm estado para secar a roupa no estendal. Gosto do cheiro da roupa secada ao sol.
Depois sentei-me aqui, onde ainda estou, aqui no sofá, a olhar para o noticiário que a televisão debita. Mas não lhe ligo muito. Deprime-me mais do que estou deprimido. Sinto-me enterrado no fundo do sofá. Todo enterrado, só com os olhos de fora. E os olhos querem-se fechar, mas não tenho sono.
Bebia qualquer coisa, mas não tenho nada para beber. Acabei com o pacote de vinho. E já estava azedo. Podia fazer um chá e despejar-lhe um pouco de álcool etílico. Mas não me apetece levantar.
Estico a mão para a mesa de apoio e pego nos cigarros. Acendo um. Penso que devia ir fumar para a varanda. Mas não consigo levantar-me. Quem é que se vai chatear?
Vou soprando o fumo em direcção à televisão, como se quisesse tapar as imagens. Mas na verdade não sei porque o faço. Talvez por brincadeira. Desfastio.
Olho à volta e não encontro o cinzeiro. Merda!, penso. Deixo cair a cinza na palma da mão em concha. Queima. A porra da cinza queima, mas não a posso deixar cair para o chão.
Acabo o cigarro. Apago-o na sola da sapatilha e ponho a outra mão por baixo para aparar a cinza que cai. Depois ponho-me a pensar no que fazer à cinza e à beata que tenho na mão. Tiro um lenço de papel do bolso das calças e despejo-lhe a cinza em cima. E faço uma bola com o lenço que deixo a rebolar na mesa de apoio. A bola cai da mesa e abre-se no chão espalhando a cinza sobre a carpete.
Já não digo nada.
Viro-me e deito-me sobre o sofá. Não tirei as sapatilhas. Não abri o cinto. Não fui apanhar a cinza. Não quero saber da novela que começa a dar na televisão.
Só penso O zolpidem é bom, e fecho os olhos.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/22]

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