Matilde na Praia

Ela não me dava um segundo de descanso.
Eu bem tentava passar pelas brasas, de cabeça enfiada na toalha, com A Bola dobrada, e ainda por ler ali ao lado, debaixo do sol abrasador, a torrar, a trabalhar para o bronze, mas ela não me deixava em paz.
Os pés cheios de areia passeavam-se pelas minhas costas. Até que gostava. Soavam a uma massagem radical. Leve, suave, mas picante. Os pés arrastavam a areia como se fosse lixa. Unhas que se passeavam por mim. Mas unhas ou lixa fofinhas. Que produziam mais cócegas que dor.
Virei-me sobre mim e ela tombou na minha barriga. Ninguém se magoou. A barriga era grande o suficiente para lhe aparar a queda e, a mim, para me proteger do tombo.
Da barriga rebolou para a areia e caiu de cara com as pernas no ar. Quando se levantou estava com cara cheia de areia. Mulher-Areia, disse-lhe. És uma super-vilã cheia de super-poderes maléficos para me super-chateares.
Ela começou por chorar, ao sentir a boca cheia de areia e ao não conseguir abrir os olhos. Mas depois de me ouvir falar desatou a rir. Peguei nela e sacudi-lhe a areia da cara. Limpei-lhe a boca e os olhos e ela olhou para mim a sorrir.
Depois disse-lhe Vamos ao mar dar um mergulho e tirar o resto da areia, e levantei-me.
Estendi-lhe a mão e ela agarrou-me o dedo indicador. E lá fomos os dois, praia fora, a descer até ao mar.
À beira do mar agarrei-a ao colo e entrei com ela dentro de água. Fomo-nos molhando com cuidado. Mas ela era aventureira, apaixonada pelo mar, e pulava no meu colo, com vontade que a largasse. Dei um impulso para cima e deixei-me afundar com ela ao colo. Quando me levantei ela começou a tossir. Tinha engolido um bocado de água. Começou a fazer beicinho mas não chorou. Recomeçou aos pulos. Eu agarrei-a pelos braços e fui baixando-a à água e fazendo-a subir. À velocidade da luz. Acompanhando os risos e as gargalhadas que dava. Fazia-a voar sobre as ondas. Pu-la num carrossel. Brincamos um bocado por ali. Depois fiquei cansado. Ela queria mais, mas eu fiquei cansado. E saímos do mar.
Sentámo-nos à beira-mar. As ondas rebentavam à nossa frente e ainda vinham lamber-nos o rabo sentado na areia. Íamos ficando com areia nos calções. Cada vez com mais areia nos calções. Mas que importava? Estávamos os dois à beira-mar, debaixo de um belo e quente sol, a ver passar as pessoas que iam mergulhar e voltavam cheias de frio. A vida era simples. Simples e bela.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/23]

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