Queria Não Ser Assim como Era

Hoje chorei.
Acordei de manhã, com um fiozinho de sol a bater-me nos olhos. Ergui-me um pouco na cama, encostei-me à parede, mas não consegui levantar-me. Tinha vontade de urinar, mas não consegui sair da cama. Puxei os cobertores para cima de mim, para me tapar, só deixei de fora os olhos que viam o fiozinho de sol a dançar no interior do quarto. E comecei a chorar.
Fiquei encostado à parede, com os cobertores sobre mim, a chorar. Chorei muito. Parecia ter em mim uma dor enorme, não tangível, mas que me angustiava e me fazia chorar. Abri muito a boca para conseguir respirar, os olhos ficaram mais pequenos, mas a enxurrada de lágrimas era cada vez mais caudalosa.
Depois solucei. E parei de chorar.
Deixei-me escorregar para dentro da cama, para debaixo dos cobertores. Estava quente.
O choro tinha-me aliviado o corpo, e sentia-me mais leve. Respirava melhor. Parecia que tinha crescido. Mas por pouco tempo.
Ouvi a campainha da porta da rua. Não me levantei. Continuei deitado. Enfiado na cama. Alheio a tudo. De olhos fechados a pensar que o mundo era aquilo ali, a minha cama quente e acolhedora, o meu quarto, dentro da minha casa, e não tinha necessidade de mais.
Tive fome. E sede. Mas não me levantei. Não conseguia. Continuava deitado. Nem me mexia. Não me virava. Continuava como estava.
O telemóvel tocou. Uma vez. Duas vezes. Não o fui atender. Depois ouvi o sinal de chegada de mensagem. E isso não me despertou qualquer vontade. Sentia-me apático. Sem vontade. Morto.
Despertei com vontade de vomitar.
Levantei-me o mais rápido que consegui e fui para a casa-de-banho. Baixei-me para a sanita e vomitei, uma espuma amarela esverdeada. Tive vários solavancos no corpo que me fizeram expelir uma data de espuma. No fim só saía um fiozinho.
Sentei-me na retrete. E deixei-me estar ali algum tempo. Comecei a arrefecer. Senti o corpo a ficar dormente. A cabeça fugia-me e queria levar-me com ela. Para a cama. Senti-me a cair. Levantei-me a custo. Puxei o autoclismo e regressei à cama. Enfiei-me debaixo dos cobertores e tapei-me todo. Nem os olhos viam a luz do quarto.
Quando voltei a abrir os olhos, não via nada.
Levantei a cabeça para fora dos cobertores, mas continuei sem ver. Fiquei assim um bocado, a tentar perceber o que se passava. Os olhos habituaram-se à escuridão e comecei a distinguir sombras. Sombras familiares. Percebi onde estava.
Sentia-me angustiado. Estava com fome. E sede. Mas não conseguia levantar-me. O telefone voltou a tocar. E eu voltei a enfiar-me debaixo dos cobertores e cobri-me todo.
Não queria ouvir o telefone. Queria não estar ali. Queria não ser eu. Queria ser uma simulação de computador. Queria morrer. Queria desnascer. Queria voltar atrás e não ser assim como era.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/19]

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