E se Fui Eu?

Acordei numa cama que não era a minha.
Não sei como é que vim aqui parar. Não me lembro da noite de ontem. A memória mais recente leva-me ao balcão do restaurante onde jantei uma omeleta de queijo. Acho que bebi um copo de vinho. E depois, está tudo em branco.
Até hoje de manhã.
Acordei numa cama que não era a minha. Estava sozinho, mas a cama estava remexida. Não estive aqui sozinho. Levantei-me. Fui à casa-de-banho urinar, lavar as mãos, a cara e os dentes. Não encontrei escova nova e usei o dedo.
Depois voltei ao quarto. Vesti os boxers e fui à aventura, descobrir onde estava. E com quem.
Desci umas escadas. Encontrei a cozinha. Fiz café. Duas torradas. Enquanto esperava, fui olhando lá para fora pela janela, para um pequeno quintal nas traseiras. Tinha três árvores, um roseiral e uma mesa de madeira com várias cadeiras. Abri a porta da rua e fiquei ali, à entrada, a beber o café e a comer as torradas.
Sai da cozinha e aventurei-me pelo resto da casa. Quando cheguei à sala fiquei petrificado. À minha frente, caída no chão, uma mulher nova, nua, com as tripas fora do corpo e um mar de sangue à sua volta. Não me contive e vomitei ali mesmo, sobre o corpo morto. Perdi as forças. As pernas cederam e caí no chão. Voltei a vomitar.
Com dificuldade, consegui arrastar-me para fora da sala e fugir daquela visão.
Voltei à cozinha. Abri a torneira do lava-loiças e enfiei lá a boca. E lavei-a. Lavei as mãos. A cara. A cabeça.
Subi ao primeiro andar e peguei no telemóvel. Comecei a marcar o número das emergências. Mas parei. O que é que estou a fazer?, pensei.
Vesti-me rapidamente e saí da casa a correr.
Quando estava a sair pelo portão de entrada pensei que não valia a pena fugir. Eu estava por toda a casa. Nunca conseguiria não ter estado ali. O medo e o desespero transformaram-se em frustração. Um peso enorme tombou-me sobre os ombros, deixei-me cair e sentei-me no lancil do passeio frente ao portão de entrada. E se fui eu?, pensei. As minhas mão tremiam.
Peguei outra vez no telemóvel e, com alguma dificuldade, telefonei para as emergências.
Acendi um cigarro e fiquei ali sentado, a fumar e à espera da polícia. Fumei os cigarros todos que ainda tinha. E pus-me a rezar para que não tivesse sido eu. E foi com alguma admiração que descobri que ainda sabia rezar.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/16]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s