Os Irmãos Metralha

Ela estava parada no meio da rua, de costas, com a mala pendurada no braço e as pernas afastadas, e estava a puxar as cuecas para o lado, através dos collants. Depois virou-se para mim e vi que ela era ele, e não estava habituado a usar fio dental.
Começou a andar, desengonçado, de pernas abertas e de difícil equilíbrio naqueles saltos e passou por mim. Exalava um odor a transpiração. A maquilhagem estava borrada e caía-lhe cara abaixo.
Eu estava encostado ao muro a fumar um cigarro e por ali fiquei. Vi-o passar ao pé de mim, senti-lhe o cheiro ácido de fim de festa, e fiquei a vê-lo desaparecer lá ao fundo da rua, na esquina com a perpendicular.
Era Carnaval. Felizmente já não era como noutros tempos. Pelo menos aqui. Os foliões fugiram todos para outras latitudes para dar aso aos seus desejos mais inconfessáveis e libertaram-nos a cidade.
Ainda havia uma ou outra criança. Mas eram residuais.
Tenho ficado exilado em casa nestes dias. Hoje arrisquei sair. E a verdade é que já não há quase ninguém mascarado por aqui. Pelo menos durante o dia. Esta matrafona foi um caso isolado.
Enquanto pensava nisto e fumava o cigarro, ouvi o chiar dos travões de um carro, que deslizou e foi bater, com estrondo, num táxi que estava parado no semáforo vermelho, na estrada à minha frente.
O táxi abalroado deu um solavanco para a frente e parou. O taxista saiu do carro e dirigiu-se a gesticular para o carro que lhe bateu por trás. Não chegou a aproximar-se ao carro. Lá de dentro saíram quatro Metralhas, quatro rapazes mascarados de Irmãos Metralha que saltaram para cima do taxista e começaram a bater-lhe. O taxista caiu ao chão. Os Irmãos Metralha desataram aos pontapés.
Eu peguei no telemóvel e fiz uma chamada para o 112.
Acabei o cigarro. Os irmãos Metralha acabaram com os pontapés. E o taxista acabou por ficar no chão, enrolado sobre si próprio, sem se mexer.
Desencostei-me do muro e fui embora. Os Irmãos Metralha entraram no carro e arrancaram estrada fora, passando por cima do passeio, ao lado do táxi, e com o semáforo vermelho. O taxista começou, lentamente, a levantar-se. Os carros que estavam atrás dele começaram a apitar com alguma insistência quando o semáforo passou a verde e o táxi continuou a bloquear a passagem.
A cidade estava perigosa. As pessoas andavam perigosas. A humanidade caminhava para o seu fim. E eu ia para casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/12]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s