O Meu Primeiro Beijo

Eu estava a lançar bolas ao cesto. Estava sem camisola. Transpirado. E lançava uma bola atrás da outra. Não era grande jogador de basquetebol. Errava a maior parte das bolas. Mas gostava de estar ali, no ringue ao ar livre, onde me chegava o cheiro da maresia, misturado aos cheiros dos vários jantares que se confeccionavam ali no parque, a lançar bolas ao cesto, sozinho, sem ter em que pensar, sem ter que conversar, sem ter de enfrentar um olhar.
Ela chegou ao ringue e subiu para o muro que o circundava. E ficou ali a olhar para mim. Errei todas as bolas seguintes.
Fui ao muro, ao pé dela, acender um cigarro. E fiquei lá. Ficámos os dois. Lado a lado. Sem nos falarmos. Depois ela também puxou de um cigarro. Pediu-me lume. Era estrangeira. Acendi o isqueiro. As mãos dela agarraram a minha, para proteger a chama de um vento imaginário, que não existia, mas que podia apagar a chama. E aproximou o cigarro. E enquanto puxou a chama para acender o cigarro, enquanto mandou umas baforadas para manter o cigarro aceso, manteve os olhos nos meus. E eu comecei a tremer. A ficar com a boca seca. A esquecer-me do inglês aprendido nas aulas. E deixei cair o isqueiro.
Ela sorriu.
Ficámos ali os dois. Ela sentada em cima do muro. Eu encostado. Fumámos os cigarros e fomos encetando uma pequena e ingénua conversa. A minha voz teimava em fugir. Quando aparecia era muito pequenina e tímida. Gaguejava. Tropeçava constantemente nas palavras. Utilizava vocábulos errados. Juntava algum francês, parecia-me. E ela sorria. Ela sorria-me muito. E quanto maior a minha parvoíce, maior o seu sorriso.
Depois ela desceu do muro, aproximou-se de mim, lançou fora a beata do cigarro, pôs-se em bicos dos pés, aproximou a sua boca da minha e senti-lhe o odor mágico de pasta dos dentes misturado com tabaco e outra coisa que não identifiquei mas que deu comigo em doido.
Vi-a aproximar-se de mim enquanto todo o espaço de afastava de nós. O ringue estava já no meio do mar e dela já só lhe via a boca, os lábios e a língua. A boca movia-se, mas não ouvi nada. Não sei o que disse e se disse alguma coisa.
E a boca dela colou-se à minha e eu senti-me a dar um pequeno enorme passo no espaço sideral, a voar pelo mar adentro, a dançar uma valsa num palácio em Viena, a rebolar dunas abaixo e acabar a furar uma onda de água tépida no mar. A boca dela estava húmida. E minha estava seca. A língua dela entrou dentro da minha boca e brincou com a minha língua. Trincou-me levemente os lábios. E com a língua sarou-me as mordidelas.
De repente acenderam-se as luzes fortes do ringue. Já era de noite. Afastámos a cara um do outro e olhámo-nos. E sorrimos, tímidos. E eu disse-lhe que tinha de ir tomar um banho.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/13]

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