A Minha Imortalidade

Subi a pé até ao alto do monte. Até lá acima onde estava a torre eólica. Fazia frio e estava vento. Muito vento. As pás da torre giravam velozes, num ritmo estável e sereno, volta atrás de volta.
Sentei-me numa pedra sobre o vale e olhei lá para baixo. Para as diferentes cores que coloriam a paisagem. Para os pequenos muros de xisto que dividiam os terrenos e os tornavam peças de um enorme puzzle. Para as casas, pequeníssimas, que pontuavam perdidas, aqui e ali. Ao fundo ouvia um cão a ladrar. Mais perto ouvi o chocalho de um rebanho. Mas a mudança do vento levou o barulho. Fiquei novamente só. Eu e o vento.
Via toda aquela terra até à linha do horizonte e pensava na parábola da oferta de todos os reinos do mundo e a sua glória em troca de uma adoração. E sorri ao pensar nisso. Achava que o importante não era a adoração, mas a imortalidade. Para mim, esse era o ponto. Era por isso que aguentava todos os dramas, todas as provações. Era por isso que nunca ponderara o suicídio. Pensava na minha imortalidade.
Acendi um cigarro com alguma dificuldade, que o vento apagava sempre a chama do isqueiro. Depois fiquei ali assim, a fumar e a olhar toda aquela distância até ao horizonte e a pensar na minha solidão, e o quanto gostava dela.
Podia ter ido para Torres Vedras, para Alcobaça, até mesmo para a Nazaré, que os convites chegaram todos, a tempo e horas, para ir ver as matrafonas e aqueles desfiles pobrezinhos e tristes na sua esforçada alegria carnavalesca, mas preferi vir até aqui, sozinho, pensar na vida, na morte, na imortalidade ou em nada, e estar em silêncio. Eu e o espaço. Eu e o tempo.
Depois do esforço da subida, o fumo do cigarro pareceu adormecer-me. Senti-me tonto e percebi que estava a sair de mim e a ser levado por uma corrente de ar quente para cima. Passei ao lado das pás das eólicas, mas virei-me e vi-me ali em baixo, tranquilo, em paz, a fumar um cigarro e a olhar para lado nenhum em particular, porque tinha aquele olhar de quem sabia. E resolvi descer.
Voltei a mim, despertei, apaguei o cigarro contra uma pedra e desci o monte.
Voltei a casa, sentei-me frente ao computador, abri uma página e comecei a escrever as estórias da minha vida. Arranquei para a minha imortalidade.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/10]

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