Tempo de Mudanças

Acordei gelado. Acordei sozinho na cama. Ela saiu da cama cedo, e eu nem dei por isso.
Acordei por causa do frio. Tremia. Levantei-me, abri as persianas da janela e vi o belo sol lá no alto, o que me provocou um arrepio. Enfiei-me debaixo do duche quente e deixei-me ali estar a aquecer.
Vesti-me. Fiz a cama. Bebi um copo de leite frio e sentei-me ao computador a escrever.
Fartei-me de escrever. Escrevi muita coisa sobre várias coisas. Quando dei por mim, o sol já tinha ido embora, o céu estava cinzento escuro e caminhava para a noite.
Estava com fome. Percebi que estava com fome e fui preparar o jantar.
Desfiz uns hambúrgueres e meti-os numa frigideira onde já estavam cebolas e alhos. Juntei uma tiras de pimentos e feijão encarnado, de lata. Fiz um tachinho de arroz. Abri uma garrafa de vinho. Pus a mesa da cozinha e fui para a sala olhar para a televisão e esperar por ela.
Adormeci frente à televisão.
Já passava da meia-noite quando acordei, cheio de frio, cheio de fome, deitado no sofá.
Ela ainda não tinha chegado.
Telefonei-lhe para o telemóvel, mas estava desligado.
Pus-me a andar de um lado para o outro. Fui à janela olhar para a rua. Voltei para dentro. Tentei outra vez o telefone. Nada.
Fui à casa-de-banho. Olhei por acaso para o copo das escovas de dentes. A dela não estava lá.
Corri ao quarto e abri o guarda-vestidos. Estava vazio. Vazio das coisas dela. Tinha lá umas calças minhas e umas camisolas. Vazio, portanto.
Sentei-me na cama e fiquei ali um bocado. Fiquei ali um bocado parado. Para pensar. Mas não pensei em nada. Não sabia o que pensar. Não percebia se estava triste ou contente. Furioso estava, sim. Disso tinha a certeza… Ou achava que tinha a certeza. A verdade é que não barafustei, não gritei, não deitei nada ao chão…
Levantei-me e fui à cozinha. Despejei vinho num copo e bebi um gole. Levantei a tampa da frigideira e comi duas colheradas. Três. Quatro.
Agarrei no meu prato e pus lá carne picada com feijão e pimentos e um bocado de arroz por cima. Sentei-me na mesa da cozinha a comer. Estava em silêncio. Só me ouvia mastigar. Gostei daquele silêncio. Bebi um gole de vinho e ouvi-me a beber o vinho, ouvi-o a escorregar garganta abaixo e o meu ahh final.
Quando acabei de comer, peguei num cigarro e fui até à varanda. Estava frio. Mas eu não tinha. Sentia-me bem. Tranquilo. Em paz.
E enquanto fumava, ia pensando nas mudanças que ia fazer no quarto. Deitei a beata para a rua e fui tratar disso.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/07]

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